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    RIO - Conhecida pelas músicas "Smile" e "Somewhere only we know", a cantora inglesa Lily Allen disse, em entrevista publicada este sábado no jornal "Guardian", ter sofrido abuso sexual de um executivo de gravadora. A revelação faz parte de sua autobiografia, "My thoughts exactly", que chega às livrarias na próxima sexta-feira.

    LEIA MAIS: Lily Allen negou papel em 'Game of thrones' por receio com cenas de incesto

    A artista de 33 anos disse que preferiu, por razões legais, não revelar o nome do seu agressor. Segundo ela, tudo aconteceu depois de uma festa em que bebeu demais e foi levada ao seu quarto de hotel.

    "Acordei às cinco da manhã porque podia sentir alguém ao meu lado pressionando o corpo nu contra as minhas costas. Eu também estava nua. Eu podia sentir alguém tentando colocar seu pênis dentro da minha vagina e batendo na minha bunda como se eu fosse uma stripper em um clube. Eu me afastei o mais rápido possível e pulei da cama, assustada. Recolhi minhas roupas rapidamente e corri para o meu quarto", disse ao "Guardian".

    Na época, Lily Allen preferiu não denunciar o ataque e culpou a si mesma pelo incidente, já que estava bêbada. Ao jornal, ela contou ainda que, mesmo após o movimento #MeToo, o abuso sexual continua abundante na indústria da música, já que as pessoas estão com muito medo de falar.

    Anteriormente, a cantora havia antecipado outras revelações do livro: a de que fez sexo num voo para o Japão com o vocalista do Oasis Liam Gallagher e a de ter recorrido a prostitutas quando seu casamento estava em crise. Em junho deste ano, ela lançou o álbum "No shame".


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    Conteúdo exclusivo para assinantes, acesse no site do globo.

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    BRASÍLIA — Aos 76 anos, com pelo menos 60 dedicados ao teatro, televisão e cinema, a atriz Ítala Nandi falou nesta sexta-feira sobre a luta feminista ao lado da amiga Leila Diniz (1945-1972), que batiza o troféu do Festival de Brasília dedicado a celebrar mulheres que se destacaram no audiovisual brasileiro. O prêmio, criado na edição em que a presença feminina é maioria na equipe do evento, foi entregue também para a montadora Cristina Amaral.

    — Leila e eu éramos como duas irmãs gêmeas — disse Ítala, também protagonista do longa de abertura, "Domingo", de Clara Linhart e Fellipe Barbosa. — Tínhamos um pensamento muito particular, independência e sempre nos propusemos a quebrar parâmetros patriarcais, inclusive os mais repressivos.

    Uma das fundadoras do Teatro Oficina, junto com Celso Martinez Corrêa, a homenageada fez História ao protagonizar o primeiro nu frontal nos palcos — na peça "Na selva das cidades", de Bertolt Brecht. Foi pela companhia que também estrelou a antológica montagem de "O rei da vela", de 1967.

    Sua postura considerada transgressora para a época resultou em censura, segundo ela, exemplificando com a entrevista que deu à revista "Realidade":

    — Leila e eu decidimos ser o que éramos. Se para os homens era normal ter uma mulher em casa e outra na rua, por que para a gente tinha que ser diferente? Falei isso na entrevista e a revista foi retirada de circulação.

    Ítala estreou na tela grande já no clássico "O bandido da luz vermelha" (1968), de Rogério Sganzerla. E trabalhou com ícones do Cinema Novo, como Joaquim Pedro de Andrade, em "O homem do pau-brasil" (1982) e Ruy Guerra, em "Os deuses e os mortos" (1970).

    Nos últimos anos, ela atuou em folhetins da Record. Agora, em seu retorno a um papel de destaque na sétima a arte, a veterna nascida em Caxias, no Rio Grande do Sul, se diz fascinada com o talento da nova geração de cineastas.

    — Minha geração foi de Glauber (Rocha). Fiquei com receio de fazer "Domingo", mesmo após ler o roteiro, porque não sabia como seria o resultado. Mas ver um "novo Cinema Novo" surgindo é algo lindo. Nas filmagens, fizemos planos longos, com até oito personagens ao mesmo tempo em cena. Lembrei-me de Joaquim Pedro e de Ruy Guerra, que criaram linguagens cinematograficas naquela época — concluiu Ítala.

    Exibido em Veneza, onde teve uma recepção "mais fria", segundo o próprio diretor Fellipe Barbosa, "Domingo" recebeu aplausos em Brasília. Ambientado durante a posse de Lula em 2003, o filme foi projetado diante de uma plateia que entoou gritos de "Lula livre", enquanto uma minoria respondia: "Está na cadeia".

    *O repórter viajou a convite do festival


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    RIO - Surpresa: o Emmy está mais imprevisível que o de costume. A cerimônia da 70ª edição, que vai ao ar nesta segunda-feira a partir das 20h, pelo canal TNT, tem tantos pesos-pesados que o resultado é um mistério nas categorias principais — não só pela qualidade artística dos concorrentes, mas também por apresentarem temas relevantes aos Estados Unidos de Donald Trump.

    Veja só a seção dramática. Corre o risco de a sombria e difícil “The handmaid's tale” levar o troféu novamente, a julgar pela grande repercussão da segunda temporada. Houve um episódio em particular que ecoou a crise migratória americana com tanta precisão que o serviço Hulu foi obrigado a inserir na abertura um aviso alertando o espectador sobre a carga dramática da trama. Foi também nesse episódio que Elisabeth Moss ofereceu uma performance feroz e de partir o coração, despontando como favorita ao prêmio. Nem o fato de ela pertencer à sempre polêmica Cientologia deve pesar contra.

    LEIA MAIS: Veja a lista de indicados ao Emmy 2018

    LEIA MAIS: Segunda temporada de 'The handmaid's tale' é mais sombria

    Mas os espiões de “The Americans” (Fox) são uma ameaça considerável à distopia baseada na obra de Margaret Atwood, uma vez que a série teve um dos desfechos mais elogiados da História da televisão — e até hoje é vista como obra que não teve o merecido reconhecimento da Academia. Será que chegou a hora de corrigir esse erro?

    LEIA MAIS: 'The americans': ex-agente da CIA conta o que é real ou não na série

    Só que tem ainda o épico “Game of thrones” (HBO). Tenha você gostado ou não da temporada atual, a série fez bonito no Creative Arts Emmy — a premiação ocorrida no começo da semana que se dedica a categorias técnicas e/ou secundárias — levando sete estatuetas. É uma indicação de que os votantes estão de olho no mundo de Westeros.

    Entre as comédias, “The marvelous Mrs. Maisel” (Amazon), que já detém dois Globos de Ouro, até é a favorita. Liderada pela carismática Rachel Brosnahan (a preferida entre as atrizes cômicas, aliás), a série de época fala sobre o papel da mulher na sociedade machista dos anos 1950. Mas enfrenta a ousadia e inteligência de “Atlanta” (FX), com suas contundentes questões raciais. Por fim, alguns veem o humor negro da novata “Barry” (HBO), que surpreendeu críticos e concorre a dez troféus, como um possível azarão.

    Como dá para notar, o Emmy deste ano deixa claro que o tempo das comédias que só faziam rir (“Friends”, essa indireta foi para você) ficou para trás. Hoje, elas também precisam fazer pensar.

    Por fim, vale uma ponderação sobre a forte presença da Netflix na premiação. Quando a lista de indicados foi anunciada, em julho, talvez você se lembre de um feito histórico: pela primeira vez em 18 anos, a HBO recebeu menos menções do que outra rede — no caso, o serviço de streaming, que teve impressionantes 112 indicações. Mas a noção de que a plataforma prioriza quantidade em vez de qualidade deve prevalecer, pelo menos nas categorias principais. Seu maior trunfo, o drama de época “The Crown”, teve uma segunda temporada elogiada, mas não muito superior à primeira. Idem para o drama “Stranger things”. A aposta está mesmo na minissérie “Godless”, um western feminista estrelado por Michelle Dockery, outra forte concorrente.


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    Uma semana antes do Emmy, ainda dá tempo de correr atrás das séries de TV indicadas ao prêmio. É o caso de "Genius: Picasso", disponível no NOW, que conta com Antonio Banderas no papel do mestre da pintura. Já as gigantes do streaming, Amazon Prime e Netflix, apresentam duas duplas afinadas em novas séries: Maya Rudolph e Fred Armisen em "Forever" e Emma Stone e Jonah Hill em "Maniac".

    'Forever' (Disponível na Amazon Prime)

    Trailer - Forever (série Amazon) Aproveite o fim de semana para conferir “Forever”, produção original da Amazon que entrou no serviço de streaming na última sexta-feira. Criada pelos escritores premiados Alan Yang e Matt Hubbard, que já trabalharam juntos em “Parks and recreation”, a série mostra a guinada na relação do casal June (Maya Rudolph) e Oscar (Fred Armisen) após uma viagem de esqui.

    'Humans' (AMC, segunda-feira, 23h30)

    Para os fãs de ficção científica,a boa da semana é a terceira temporada de “Humans”, que estreia no AMC. Remake do drama sueco “Real humans", a série se passa em uma Londres do futuro, onde humanos vivem em conflito com o synths, humanóides que desenvolveram consciência. Em meio à luta contra a opressão, os synths ainda vão ter que encarar disputas dentro da própria comunidade.

    ‘Genius: Picasso’ (Disponível no NOW)

    Trailer - Genius Picasso Pode ser que “Genius: Picasso”, segunda temporada da série antológica do National Geographic, tenha passado batida por você. Se esse foi o caso, aproveite que os dez episódios da produção estão disponíveis no Now e deleite-se com Antonio Banderas na pele de Pablo Picasso. A atuação rendeu ao espanhol uma indicação ao Emmy, cuja cerimônia acontece amanhã.

    ‘Maniac’ (Netflix, disponível a partir de sexta-feira)

    Trailer - Maniac

    Emma Stone e Jonah Hill são as estrelas dessa minissérie de humor que tem tudo para ocupar seu fim de semana. Na trama, eles vivem Annie Landsberg e Owen Milgrim, dois estranhos que se conhecem ao se voluntariar para serem “cobaias” do Dr. James K. Mantleray (Justin Theroux), que promete ter inventado uma pílula capaz de dar um jeito em qualquer coisa na mente humana.


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    RIO - Os domingos na televisão vão ficar mais musicais. Tudo por causa da estreia do PopStar, reality show da TV Globo que retorna para uma segunda temporada neste domingo, após o Esporte Espetacular.

    Na competição, catorze personalidades já bem conhecidas do público: a modelo Carol Trentini, a jornalista Renata Capucci e os atores Eri Johnson, Fafy Siqueira, João Côrtes, Jonathan Azevedo, Klara Castanho, Lua Blanco, Malu Rodrigues, Mouhamed Harfouch, Fernando Caruso, Jeniffer Nascimento, Samantha Schmütz e Sergio Guizé.

    Após uma primeira temporada em que o ator André Frateschi foi o grande campeão, o programa retorna com várias novidades. A principal dela é a entrada de Taís Araújo como apresentadora, no lugar de Fernanda Lima.

    — Quando o Boninho (diretor de núcleo do programa) me ligou para me convidar, achei que era trote — brinca Taís, que topou na hora e conversou com Fernanda Lima sobre a nova função.

    — É um programa muito diferente do que eu já apresentei antes (ela já comandou o “Superbonita”, do GNT, entre 2006 e 2009). Como telespectadora, me envolvia muito com as histórias dos participantes, até porque são meus colegas de profissão. Acho que agora vou ser essa mesma telespectadora, só que conduzindo. Não tenho medo de me emocionar, faz parte da minha personalidade — adianta Taís.

    PopStar: conheça os participantes da segunda temporada

    Outra diferença em relação ao ano passado vai ser na forma como as notas serão aplicadas. Agora, os jurados poderão dar notas que variam de 9.7 a 10 e, além disso, conceder uma estrela bônus aos participantes. Se o candidato ganhar oito estrelas bônus ou mais, um ponto extra será somado à sua média final, que continua sendo uma soma das notas do júri especializado com a dos participantes da plateia interativa e do público em geral, que pode votar quantas vezes quiser em seus favoritos no site do Gshow.

    Diretor artístico do PopStar, Creso Eduardo Macedo comenta o amadurecimento da atração:

    — No ano passado, tudo era muito novo e o elenco, apesar da vontade de participar, ainda não sabia o que esperar. Nesta temporada foi diferente: tivemos artistas que pediram para participar — destaca.

    Mas nem tudo mudou no universo do PopStar: o ator e cantor Tiago Abravanel continua responsável pela cobertura dos bastidores, mostrando o que acontece enquanto os artistas se preparam para subir ao palco.

    — Não estou ali para dar qualquer direção técnica aos participantes. Na verdade, minha função é ser como um ombro amigo dos participantes, porque sei da responsabilidade e da pressão que é estar cantando em um palco ao vivo — comenta Tiago, para quem o grande barato do programa é mostrar pessoas famosas tentando se superar de uma forma inesperada.

    — É muito bacana você ver alguém que já é seu ídolo em um novo desafio, encarando o nervosismo. Acho que a gente vai se surpreender principalmente quando virmos pessoas que jamais imaginamos estar nessa situação, como a Carol (Trentini) e a Renata (Capucci), que não são do meio artístico. São duas mulheres incríveis nas suas áreas, que resolveram mostrar para a gente um lado que não conhecíamos — comenta.

    No mesmo espírito, Taís Araújo conta que também vai se arriscar no programa, com figurinos mais irreverentes. Para o primeiro programa, uma das inspirações foi a cantora Janelle Monáe e seus smokings.

    — A galera que está competindo vai estar fora da sua zona de conforto, então vou sair da minha também. Vamos brincar com tudo que é da moda. Está sendo muito divertido encontrar a minha cara como apresentadora — celebra.


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    RIO — Quando anunciado, o projeto para a 33ª Bienal de São Paulo, concebido pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro, soou interessante e necessário: incluir os artistas e o público na sua concepção e montagem. Realizar uma Bienal que evidenciasse sua escassez de recursos e até mesmo seus vícios poderia ser uma excelente oportunidade para transformar a exposição no espelho para um Brasil ferido, ameaçado em sua liberdade e em sua vida cultural. O que se vê no Ibirapuera, no entanto, é uma mostra que permanece congelada na beleza e no silêncio das formas.

    Não há nada de errado com a beleza. Não há nada de errado com o silêncio. Uma exposição, qualquer que seja, não precisa estender faixas ou entoar palavras de ordem para estar aberta ao espírito de sua época. Em 2010, Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos partiram de um verso de Jorge de Lima (“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”) para falar de política das mais variadas formas, inclusive daquelas mais belas.

    Em 2012, Luis Pérez-Oramas fez da 30ª Bienal uma exposição sutil, que se revelou extremamente transgressora a partir de um gesto simples: transformar o artista esquizofrênico Arthur Bispo do Rosário em seu centro irradiador poético, questionando hierarquias e sistemas de validação do meio de arte. Em 2016, a 32a Bienal, a cargo de Jochen Voz, radicalizou as relações entre arte e vida ao fazer da mostra literalmente um alimento: a obra do artista Jorge Menna Barreto, “Restauro”, era o único restaurante e café do prédio, e oferecia exclusivamente comida orgânica e vegetariana, muitas vezes preparada com espécies recolhidas no Ibirapuera.

    Se na história recente da exposição chamam a atenção a ousadia de transbordamentos muito heterogêneos, nesta Bienal a tônica é uma contenção que é quase timidez. Esta edição tira seu título, “Afinidades afetivas”, de duas referências: o romance “Afinidades eletivas” (1809), de Goethe, e a tese “Da natureza afetiva da obra de arte” (1949), de Mário Pedrosa.

    Goethe mostra como a vida tediosa de um casal aristocrata é perturbada pela chegada de dois visitantes; já Pedrosa, que acreditava na crítica como militância política, vai anunciar a ideia de “natureza afetiva” pensando no poder mobilizador da obra de arte. São dois textos que concebem afeto como perturbação e transformação. E é exatamente isso o que falta à Bienal, uma bela adormecida que não desperta para o debate e o conflito.

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    A partir do conceito químico de “afinidade eletiva”, que norteia a obra de Goethe, Pérez-Barreiro convidou sete artistas para fazerem a curadoria de exposições com obras de suas escolhas, com a única condição de que se incluíssem nelas. O próprio curador selecionou ainda 12 projetos individuais de artistas brasileiros e estrangeiros.

    Isoladamente, há obras e mostras interessantes, mas o conjunto não forma um arquipélago de ilhas que se intercomunicam, e sim uma sucessão de artistas e obras que parecem ser planetas muito distantes um do outro. A falta de diálogo entre as partes faz com que perca de vista a “afinidade eletiva” fundamental: a empatia na direção do público.

    Na análise da mostra ponto a ponto, há, no entanto, trabalhos que valem a ida ao Ibirapuera, a começar pelo pequeno núcleo histórico dedicado a Friedrich Fröbel (1782-1852), alemão que foi o inventor do conceito de “Kindergarten”, que derivou no “Jardim de infância” que temos hoje nas escolas. Parte da curadoria realizada pelo artista espanhol Antonio Ballester Moreno (“Sentido/comum”), a sala dedicada a Fröbel procura mostrar como seus jogos e livros educativos voltados para crianças pré-alfabetização foram uma das bases para as transgressões das vanguardas modernas.

    Afinal, artistas como Kandinsky e Paul Klee foram ao “Kindergarten” e, a partir do método de Fröbel, entenderam as possibilidades de transgressão contidas na cor e na forma. Talvez resida neste pequeno e extremamente significativo conjunto de trabalhos um caminho que a Bienal poderia ter radicalizado como concepção geral da mostra – o lúdico e a infância como pontos de partida para desobediências e novas significações. Mas não há conversa evidente entre essa sala e outros bons trabalhos selecionados por Moreno e o restante do Pavilhão.

    Outro bom momento é a coletiva “Stargazer II”, com curadoria da pintora sueca Mamma Andersson. Ela seleciona artistas e obras de arte que teriam funcionado como um inventário de imagens para a formação de sua obra, entre eles seis conterrâneos de diferentes épocas e ícones russos. O segmento também inclui uma joia rara: o filme de animação “A vingança do cinematógrafo” (1912). Feito por um pioneiro da imagem em movimento, o polonês Ladislas Starevich (1882-1965), ele mostra baratas descobrindo as maravilhas e as agruras do cinema.

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    Waltercio Caldas assina a curadoria da mostra “Os aparecimentos”. O conjunto evidencia o processo de formação do olhar de Waltercio, sobretudo pela inclusão de brasileiros como Goeldi e Sergio Camargo. Mas a excelência de alguns trabalhos - do próprio artista-curador e de nomes como Bruce Nauman, Blaise Cendras, Gego e Armando Reverón - é perturbada pela expografia. O piso foi forrado por um questionável carpete marrom e a luz da sala é feita com lâmpadas frias, além de as obras terem pouco espaço entre uma e outra, o que dificulta sua fruição.

    Muito mais grave é o caminho tomado por Sofia Borges em sua coletiva “A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um”, na qual apresenta obras de Tunga, Leda Catunda e Sarah Lucas presas ou em frente a um fundo feito por teatrais cortinas de veludo molhado, em cores variadas.

    Nem a iconoclastia e a atmosfera de um barroco contemporâneo que permeiam os trabalhos selecionados poderiam justificar esta escolha cenográfica, que é quase uma ofensa – às obras e à percepção do visitante. Nos raros momentos em que esta mostra dentro da mostra encontra respiro visual fora das cortinas, é possível perceber de forma ainda mais contundente o erro do cenário, já que os bons diálogos encontram possibilidades de existência.

    Um dos mais fortes e felizes ocorre entre uma pintura-objeto monumental de Catunda, feita em tons de dourado, e um pequeno quadro nos mesmos tons do artista do inconsciente Artur Amora, revelado por Nise da Silveira.

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    Nos projetos individuais, chamam a atenção as salas dedicadas a dois artistas falecidos: o paraguaio radicado na Argentina Feliciano Centurión (1962-1996) e a goiana Lucia Nogueira (1950-1998), ainda pouco reconhecida e estudada no Brasil por ter passado a vida em Londres.

    Mesmo que Centurión parta da delicadeza do bordado para reinventar uma iconografia guarani e Nogueira do rearranjo de materiais pré-existentes para evidenciar o risco e a tensão, ambos são autores de objetos turbulentos. A exemplo do que aconteceria com o “Jardim de infância” de Fröbel, esta dupla de artistas criadores de objetos tão indisciplinados poderia ser propulsora de uma Bienal que se propôs a ressaltar a transformação afetiva das formas.

    Outra individual bem—sucedida é a de Nelson Félix, que apresenta obra ainda em processo na qual foi a pontos extremos do planeta, como o Alasca e o Ushuaia, para pensar uma reinvenção da paisagem. Os cáctus que crescem na direção de espetos de ferro são uma dupla raridade no Ibirapuera: abrem-se para uma interlocução com nossos tempos pontiagudos e dialogam com a arquitetura de Oscar Niemeyer. Desafiador em usa onipresença, o prédio da Bienal foi explorado como campo de criação e conflito por outras edições. Nesta, reina soberano como na desenergizada “Bienal do vazio” (28ª edição, 2008): sequer seu vão central foi ocupado. Não seria exagero dizer que, visualmente, Niemeyer é a presença mais marcante da mostra.

    De um modo geral, obras e exposições foram pensadas como núcleos ensimesmados, montados de costas para o lugar que os abriga e para a vida fora do prédio, que começa no parque. Também de um modo geral, a Bienal de Pérez-Barreiros — que é diretor de uma importante coleção privada em Nova York e Caracas, a de Patricia Phelps de Cisneros — apresenta trabalhos que poderiam ser vistos em qualquer galeria, e esta simplicidade, que poderia ser acolhimento, dá ao visitante uma sensação de trivialidade e domesticação. Se é adormecida, essa bela revela-se ainda, em alguns momentos, recatada e do lar.

    *Daniela Name é crítica de arte.


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    Diariamente, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional, todos nos confrontamos com dilemas éticos, questões espinhosas e dúvidas banais que parecem problemas insolúveis. Partindo dessas miudezas existenciais do cotidiano, o autor britânico Marcus Weeks selecionou 40 tópicos sobre relacionamentos, trabalho, estilo de vida, lazer e política para auxiliar o leitor que luta para decifrar as esfinges do dia a dia através do pensamento de grandes filósofos como Kant, Schopenhauer e Platão.

    Esse compêndio resultou no livro “O que Nietzsche faria?”, uma espécie de “Filosofia emocional para leigos”, que a editora Sextante publicou no último mês.

    — Apesar de formado em música, a filosofia sempre foi um campo que me interessou. Em 2010, me convidaram para escrever um livro explicando questões filosóficas de maneira simples para o leitor comum. Neste projeto, a ideia não era fazer uma obra de auto-ajuda per se, mas explorar temas profundos na linguagem desse gênero. A ideia de examinar a reação deles diante de problemas modernos realmente atiçou meu senso de humor — conta Weeks.

    E tal faceta da personalidade do inglês pode ser vista em muitos itens do livro, como: “Minha amiga está sendo traída pelo namorado. Devo contar para ela?”. A resposta é dada num duelo sobre graus de honestidade que passa por teorias como o imperativo categórico de Kant e a ideia de Bentham de que é necessário avaliar a “utilidade” de uma ação pensando nos danos ou benefícios que ela pode trazer.

    — Pensamos em situações em que as pessoas buscariam conselhos para saber como agir. Uns problemas foram escolhidos para ilustrar um determinado ponto filosófico ou para ressaltar uma escola de pensamento. Outros foram selecionados pelo humor, pela esquisitice ou pela sua própria banalidade. Quem pensaria que o Nietzsche teria algo a dizer sobre a distribuição justa das tarefas domésticas? — indaga.

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    O próprio filósofo alemão que está no título do livro, no entanto, assim como muitos outros pensadores no decorrer da história, teve de lidar com problemas de saúde mental em sua vida. Se esse campo de estudo serve mais para suscitar reflexões do que dar respostas, o conselho desses autores seria valioso para os dramas contemporâneos do cotidiano como comprar um “Carro esportivo ou perua”?

    — Acho que eu não recorreria ao Nietzsche (risos). É como minha avó diria: “Faça o que eu digo, não o que eu faço”. Não é fácil seguir seu próprio bom conselho, e muitos pensadores não viveram à altura de sua filosofia moral, como o Schopenhauer, que era confrontado pelo seu mau comportamento. Mas isso não quer dizer que não devemos valorizar suas opiniões, é claro — pondera.

    Para justificar a escolha pelo carro esportivo, Weeks recorre ao “solteirão convicto” David Hume: “A razão é, e deveria apenas ser, escrava das paixões”. Confúcio, pelo outro lado, provavelmente optaria pela perua: “O homem superior faz o que é apropriado à posição em que está; ele não deseja ir além”.

    — O barato é exatamente porque a filosofia questiona mais do que responde. Quando você começa a desafiar suposições, você percebe o quão rica e complexa a vida é. Os filósofos não nos dão as respostas, mas nos proporcionam as ferramentas e a informação para que possamos pensar por nós mesmos. Ao contrário da religião, a filosofia não é dogmática, ela não cria regras ou espera que aceitemos as coisas através de atos de fé. Ela apenas nos convida a pensar. Na minha opinião, uma pessoa reflexiva acaba tendo uma vida mais feliz — filosofa Weeks.

    Colaborador de enciclopédias e livros de referência, o autor assinou títulos como “Se liga na filosofia" e “O livro da psicologia". O tempo de pesquisa para o novo livro foi de cerca de um ano.

    — O principal problema foi o anacronismo. É muito difícil encontrar informação sólida sobre como o Aristóteles reagiria à ética das redes sociais, por exemplo. Então, eu precisei ser indulgente com uma certa quantidade de especulação bem informada — confessa Weeks, que já atuou em diversos áreas. — Eu já fui músico, professor de inglês, afinador e restaurador de piano e gerente de galeria d e arte. A filosofia é um interesse de estudo de lazer.

    Amador em meio a um campo de conhecimento amplo, vasto e que demanda estudo profundo e reflexão apurada, Weeks tem que lidar com seus próprios questionamentos cotidianos sobre o nicho editorial em que atua há cerca de 20 anos.

    — A filosofia é uma busca ativa, não passiva. Tudo se resume à atividade de pensar. Posso apenas desejar que não muitos filósofos estejam se revirando em suas tumbas — brinca.

    ‘O que Nietzsche faria?’

    Autor: Marcus Weeks

    Editora: Sextante

    Páginas: 240

    Preço: R$ 49,90.


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    RIO — No ano em que completa sete décadas, o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM) vai passar por uma profunda reestruturação administrativa. A principal delas envolve outro “aniversariante”, que, em 25 de outubro, também chega aos 70 anos: Carlos Alberto Chateaubriand, o Bebeto, vai deixar a presidência da instituição, a qual ocupa há 16 anos. Como adiantou o colunista Lauro Jardim, de O GLOBO, há duas semanas uma assembleia aprovou um novo estatuto e a extinção do cargo que presidente, cujas funções serão divididas em dois novos postos administrativos: uma diretoria executiva e uma de relações institucionais, para qual foi escolhido o advogado e colecionador Paulo Vieira. Para o outro cargo, o museu está buscando, um profissional com um perfil de gestão, que não tenha necessariamente relação com o meio das artes.

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    Com a mudança, Bebeto — que é filho de Gilberto Chateaubriand, dono da coleção de cerca de 6 mil obras mantida em comodato na instituição — passa a presidir o Conselho de Administração, mantendo o vínculo com o museu, mas deixando o dia a dia para os futuros diretores. Desde março, quando, assolado por dívidas milionárias, o museu anunciou a venda a tela “Nº 16” (1950), de Jackson Pollock , para a criação de um fundo de reserva e aquisição de obras, a atual administração passou a ser alvo de críticas de nomes das artes visuais e de fora do meio. Em abril, um manifesto reuniu mais de 100 artistas, marchands e curadores contra a venda da obra e defendendo um “choque de gestão” na instituição. O atual presidente diz, no entanto, que a decisão de alterar o estatuto era anterior à polêmica. MAM 70: um museu, muitas histórias

    — Debatíamos isso já no ano passado, para os 70 anos do MAM e também para os meus 70 anos. É algo geracional, temos que trazer outras cabeças para cá. Continuo na presidência do Conselho, mas não quero mais ficar para lá e para cá correndo atrás de dinheiro para mantê-lo funcionando — conta Bebeto. — As críticas não me atingiram, absolutamente. Você vê apenas algumas pessoas com quem tinha relações e passa a não ter mais.

    78827300_SC Rio de Janeiro RJ 11 - 09 - 2018 - Entrevista com Bebeto Chateaubriand Presidente do MA.jpgO novo estatuto traz mudanças significativas ao original, criado no fim da década de 1940 e que sofreu alterações pontuais, aprovadas em assembleia, ao longo dos anos . O GLOBO solicitou acesso ao documento, mas não o recebeu por ainda não ter sido registrado em cartório, o que, segundo Paulo Vieira, deve acontecer nos próximos dias.

    Além da divisão da presidência nas duas diretorias, o novo estatuto cria um corpo de Associados Sêniores (formado temporariamente por 15 nomes) e de um grupo de Associados Plenos, que pode chegar a 50 ou 60 nomes. Diretorias e conselhos terão mandatos de três anos, com possibilidade de duas releições, e cada associado fará doação mínima de R$ 10 mil anuais. Enquanto aguarda a decisão sobre o indicado para a diretoria executiva para que que os dois assumam suas funções, Vieira espera que as mudanças ampliem as relações do museu com a sociedade, atraindo possíveis mantenedores e parceiros.

    78839042_SC Rio de Janeiro RJ 13-09-2018 Advogado Paulo Vieira do conselho de administração do MAM L.jpg— A ideia, ao migrar para um modelo mais contemporâneo de governança, é criar portas de entrada para quem quiser contribuir. Tem gente que quer participar com doações financeiras, outros querem participar mais da vida do museu e outros têm interesse de integrar os órgãos diretivos — detalha Vieira. — Quando surgiu a polêmica do Pollock, percebemos que vários de nós andávamos afastados da vida do museu. Nós voltamos a abraçá-lo, em um momento de crise sistêmica, que é mais aguda no Rio. Estas mudanças são passos iniciais a partir de um diagnóstico dos desafios e potenciais do MAM.

    Enquanto as mudanças não são implementadas, o meio artístico aguarda o que acontecerá após a venda do Pollock. Um dos signatários do manifesto contra a venda, o crítico e curador Felipe Scovino torce para que o MAM aprofunde seu contato com a sociedade:

    — Um museu não existe só de 12h às 18h, é preciso se relacionar com a comunidade. Espero que o MAM possa ser o que já foi um dia, como na época dos Domingos da Criação, um espaço de encontros para público e artistas. Independentemente de ser público ou privado, um museu pertence à cidade.

    E o Pollock?

    Pollock.jpgPeça central na recente polêmica envolvendo o MAM, a tela “Nº 16” de Jackson Pollock (1912-1956), segue à venda por US$ 25 milhões. Um comitê de cinco nomes, entre eles associados como Nelson Eizirik e Helio Portocarrero, seria responsável por acompanhar a gestão dos recursos obtidos.

    Segundo Bebeto, a tela quase teve um comprador brasileiro, que aceitaria mantê-la três meses por ano no MAM, mas depois desistiu do negócio. Agora o destino parece mesmo ser o exterior:

    — Estamos fechando os últimos detalhes do contrato e nas próximas semanas vamos anunciar a casa de leilões que fará a venda. Pensamos até numa oferta pública no Brasil, mas no momento é difícil conseguir um comprador aqui.


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    RIO - Rome Ramirez não é bobo. O vocalista e guitarrista do Sublime with Rome, a reencarnação (chamada por muitos de banda cover) do Sublime após a morte de Bradley Nowell por overdose em 1996, sabia o que o público que se espremeu em um lotado Hub RJ ontem à noite queria. Hits. Sucessos. E foi isso que o povo recebeu em um show de cerca de 1h30min.

    Sublime with Rome no Toca no Telhado

    É uma espécie de encruzilhada para Rome, dono de uma voz que lembra e muito a de Bradley. Por um lado é uma tarefa cômoda se apegar aos clássicos do passado da banda de ska-punk-reggae e jogar um jogo já ganho. Por outro, a banda precisa mostrar seu trabalho, suas músicas novas, mesmo correndo o risco de conviver com a apatia do público e aquele movimento em massa de espectadores indo ao bar buscar uma cerveja.

    Mas como Rome não é bobo — você já leu isso na primeira frase —, o show começou em alta frequência. "Date Rape" abriu os trabalhos, seguida por "Smoke Two Joints" e "Wrong Way". Um petardo atrás do outro, e a galera já estava no bolso, cantando os refrões em uníssono e, claro, abastecendo o Instagram com centenas de stories.

    Seria difícil manter o show no mesmo patamar por tanto tempo, e a apresentação teve seus momentos de irregularidade, com alguns reggaes arrastados passando um pouco além da duração desejada. O som da guitarra de Rome parecia também um pouco irregular e baixo. Entremeando uma e outra música da nova formação aqui e acolá, o Sublime with Rome deixou o melhor para o fim, tocando "What I Got" e a radiofônica "Santeria" no bis. O jogo foi ganho, mas não de goleada, e a galera saiu satisfeita, recebendo o que queria. Nem mais, nem menos.


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    RIO — Drama sobre racismo nos Estados Unidos nos anos 1960, "Green book", do diretor americano Peter Farrelly, é o vencedor do prêmio principal do Festival Internacional de Cinema de Toronto (Tiff). Na mostra, considerada um termômetro para o Oscar — "La la land" e "12 anos de escravidão" foram premiados em edições recentes — é o público que decide o ganhador das principais categorias.

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    Sem pista para o Oscar, Toronto tem 'Halloween' como filme mais concorrido

    O longa de Farrelly (mesmo diretor de"Debi & Loide" e "O amor é cego") bateu concorrentes como "Nasce uma estrela", filme com Lady Gaga dirigido por Bradley Cooper, e "If Beale Street could talk", de Barry Jenkins. Em sua sessão de exibição no Festiva,l "Green book" foi aplaudido durante mais de um minuto.

    A vitória em Toronto coloca o filme como um dos favoritos aos Oscar de 2019. Estrelado por Mahersala Ali e Viggo Mortensen, o longa é inspirado num caso real ocorrido no começo dos anos 1960 nos EUA. No filme, Tony (Mortensen) ganha a vida como segurança em clubes da máfia no Bronx. Até que recebe a proposta de virar chofer de um importante pianista negro, Don Shirley (Ali), durante uma excursão pelo sul profundo dos EUA.

    'Green book'

    A viagem expõe a cisão da sociedade americana na época. O livro verde a que o título do longa faz referência é um guia que existiu realmente. Nele eram listados estabelecimentos que aceitavam servir negros no sul, onde a segregação racial era institucionalizada pelos estados.

    Os outros premiados pelo júri popular no Festival de Toronto foram "Free solo" de E. Chai Vasarhelyi & Jimmy Chin, como Melhor Documentário; e "The man who feels no pain", de Vasam Bala, na categoria Seção da Meia-noite. Já “Skin”, de Guy Nativ, foi escolhido como o melhor filme pela crítica.

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    Em sua 43ª edição, o Tiff exibiu 345 filmes e se firma ao lado de Cannes, Veneza e Berlim como um dos festivais mais importantes do mundo. Na cerimônia de premiação foram ressaltados os esforços para aumentar a participação feminina na indústria do cinema. Dos 345 filmes deste ano, 35% foram dirigidos por mulheres. Em 2013, eles eram 22%.


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    BRASÍLIA — As reações a "Torre das Donzelas", filme que abriu, neste sábado, a mostra competitiva do 51º Festival de Brasília, surpreenderam até quem frequenta o evento há anos.

    A sessão foi aplaudida de pé por cinco minutos, no início e no fim. Choros emocionados vinham da plateia — onde, aliás, estavam pelo menos oito ex-presas políticas que, na ditadura, viveram na tal torre do título, apelido dado ao conjunto de celas femininas do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Essas mulheres são personagens centrais do documentário dirigido por Susanna Lira, que conta ainda com depoimentos inéditos e reveladores de Dilma Rousseff.

    LEIA MAIS: No Festival de Brasília, Ítala Nandi fala de feminismo e exalta cineastas jovens

    LEIA TAMBÉM: Festival de Brasília tem início político com ficção sobre a posse de Lula

    "Torre das Donzelas" causou comoção porque apresenta relatos perturbadores sobre a tortura vivida diariamente dentro do local. Mas, numa reviravolta surpreendente, também explica como as prisioneiras transformaram o confinamento num espaço de resistência, sororidade e sobrevivência. Ainda neste domingo, as "donzelas" eram recebidas com aplausos por onde passassem.

    — Entendo o filme como um testemunho, que é diferente de memória, porque há a escuta. Eu falo, vocês ouvem — diz Rita Sipahi, uma das entrevistadas do filme, hoje conselheira da Comissão de Anistia.

    Na primeira metade do filme, os relatos são desconcertantes. "Parecia um campo de concentração", diz uma das entrevistadas ao descrever a prisão. Uma delas diz ter visto uma colega pesar 37 quilos. Trailer de 'Torre das Donzelas'

    Dilma lembra dos termos machistas usados pelos torturadores, que obrigavam as mulheres a se despir. "Nudez é algo pior para a mulher do que para o homem, porque o torturador é homem", diz a ex-presidente.

    — Comecei a colher os relatos há sete anos como forma de resgatar a nossa memória. Hoje, eles são um alerta — afirmou Susanna Lira, fazendo um paralelo com o Brasil de hoje.

    Documentarista especializada em contar histórias de mulheres vítimas de opressão e violência — são dela obras como "Mataram nossos filhos" (2016), "Damas do samba" (2015) e "Legítima defesa" (2017) —, Susanna optou por um recurso incomum para extrair as histórias no documentário.

    Pediu que as militantes — que à época eram, em sua maioria, integrantes de organizações de combate à ditadura — desenhassem a Torre a partir de suas lembranças. Segundo a diretora, nenhuma ilustração ficou igual à outra. Construiu-se, então, uma instalação num estúdio de São Paulo que misturava todas as versões. O resultado é uma cenografia que lembra "Dogville" (2003), de Lars von Trier, citado pela diretora como referência.

    A emoção evidenciada no rosto das mulheres ao pisar no espaço pela primeira vez é de partir o coração. É ali que ocorrem todas as entrevistas — com exceção de Dilma, que na época precisou se defender no processo de impeachment.

    — A Dilma tem uma profunda relação com a gente — afirma Rita. — Somos a família dela. Quando ela precisa, chama a gente.

    torredonzelas.jpgAna Miranda, outra ex-presa e hoje ativista de direitos humanos, elogia a capacidade de Dilma falar de maneira objetiva e analítica — habilidade que, segundo ela, ainda é desconhecida por parte de brasileiros que acompanha apenas a sua atuação política e pública.

    "A prisão tenta tirar duas coisas de você: o espaço e o tempo. Então foi isso o que fizemos: tomamos controle do espaço e do tempo", afirma a ex-presidente numa cena do documentário, arrancando aplausos e gritos de apoio da plateia.

    Mas como fazer isso? Ora, lendo livros, praticando esportes e exercícios, estabelecendo rotina, trocando conhecimento e deixando o local limpo — quase tudo à revelia dos militares. Algumas, inclusive, tiveram sua formação política na cadeia. É aí que o filme deixa o tom sombrio de lado para tornar-se uma celebração da sobrevivência, resistência e união feminina. As mulheres passaram até a se vestir bem dentro da prisão — algo aparentemente "fútil", como define uma delas no longa, mas que no contexto do aprisionamento gera momentos de alegria.

    — Há o processo inicial da dor, da tortura, mas também há o acolhimento entre elas. Temos que fazer isso hoje também, porque a alegria é uma forma de resistência — afirma Susanna, sem segurar as lágrimas.

    — Contruímos na Torre um espaço de liberdade — acrescenta Marlene Soccas, uma ex-presa que também marcou presença no Festival de Brasília. — Fomos e seremos sempre a favor da liberdade. Na cela havia um cartaz com gaivotas voando. Uma freira que nos visitou comentou: "Como deve ser triste estar presa diante deste painel". O que ela não sabe é que meu corpo estava preso, mas minha cabeça voava o mundo inteiro.

    Num dos momentos finais do documentário, Dilma resume, em duas palavras, o resultado da experiência: "Nós vencemos."

    No primeiro dia de competição, também foi exibida a ficção "Los silencios", de Beatriz Seigner. O filme já havia sido projetado em maio, na mostra Quinzena dos Realizadores, em Cannes.

    *O repórter viajou a convite do festival


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    RIO - Menos protestos, mais filas. No último dia de “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira” no Parque Lage, no Jardim Botânico, o grande acontecimento era a aglomeração de interessados em aproveitar a última chance de conferir a mostra, que, por enquanto, não tem previsão de ser exposta em nenhum outro lugar.

    CRÍTICA: Falta ‘queer’ em ‘Queermuseu’

    Cancelada em Porto Alegre pelo Santander Cultural após protestos de grupos conservadores que a acusavam de promover “pedofilia”, “zoofilia” e “blasfêmia”, o “Queermuseu” foi viabilizado no Rio graças a um financiamento coletivo que arrecadou mais de R$ 1 milhão. Inaugurada em 18 de agosto, a mostra recebeu, até sábado, 34.659 visitantes. Para dar conta da demanda ontem, último dia, a organização estendeu o horário de visitação até as 22h (inicialmente iria até as 17h). O tempo de espera na fila podia passar de duas horas.

    — Vim pela curiosidade. Acompanhei a polêmica e queria ver de perto qual era o motivo, para tirar minhas próprias conclusões — contou a cabeleireira Maria de Luz Clemente, de 46 anos, ao chegar ao local.

    ENTENDA:Afinal, o que é a exposição do 'Queermuseu'
    Foi pelo mesmo motivo que o aposentado Roberto Cortes, de 73 anos, resolveu visitar o Parque Lage. Gay e eleitor do candidato à presidência Jair Bolsonaro (que afirmou, durante participação no programa mineiro “TV Verdade”, do SBT/Alterosa, que os responsáveis pelo “Queermuseu” deveriam “ser fuzilados”) Roberto não encontrou “nada de especial” nas obras expostas.

    — Queria ver se tinha algo de estranho. Não vi, só acho que estou muito por fora da arte atual. Para mim, não se deve censurar. Só sou a favor de se ter um limite de idade — defendeu o aposentado (a exposição recebeu classificação indicativa de 14 anos).

    78888005_SC Rio de Janeiro RJ 16-09-2018 - Longas filas marcam o ultimo dia da exposicao Queer Museu.jpg

    De visita ao Rio, o texano Don Trimble, de 69 anos, ficou impressionado com a diversidade do público.

    — Sou gay, então é muito intrigante para mim ver esse movimento. Creio que nos Estados Unidos também tentariam proibir essa exposição. Não em Nova York ou em Los Angeles, mas em várias outras cidades, tentariam inviabilizá-la — disse ele.

    Estudiosa da temática queer, a psicóloga Paula Smith, de 36 anos, criticou o discurso de grupos religiosos contra a mostra.

    — Esta é uma exposição que pensa a relação com o sagrado. E o que vemos é que há contra ela uma concepção do sagrado que exclui outros seres humanos — criticou.

    78888103_SC Rio de Janeiro RJ 16-09-2018 - Longas filas marcam o ultimo dia da exposicao Queer Museu.jpg

    Diretor presidente da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), Fabio Szwarcwald diz que o clima de tranquilidade imperou ao longo do mês.

    — Os manifestantes contra a exposição viram que não iam ter força política para mudar o entendimento já bem estabelecido de que não tem nada de pedofilia, zoofilia nem vilipêndio religioso aqui— afirmou Szwarcwald, que lamentou o fato de a mostra ainda não ter encontrado um novo lar.

    — É uma pena, porque o “Queermuseu” serviu a um movimento muito importante contra a censura. O trabalho que foi feito aqui poderia continuar, ser levado a outras capitais.Relembre a trajetória da 'Queermuseu'

    Curador da EAV, Ulisses Carrilho comemorou a repercussão da mostra.

    — O discurso minoritário costuma ser assunto de alguns, e não de todos. E o “Queermuseu” virou uma discussão pública, por fazer isso virar um assunto na casa das pessoas. Elas foram convidadas a pensar a diferença, a ver que o modo de vida delas não é o único.

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    RIO - Um pocket show surpresa do cantor Ney Matogrosso encerrou o último dia da exposição "Queermuseu" no Parque Lage. O próprio artista teve a ideia de se apresentar lá, depois de ter visitado a mostra nesta última semana em que ela esteve em cartaz.

    — Fiquei muito impressionado com todo o movimento em torno da exposição, com sua abrangência, com o fato de todos os monitores serem LGBT. Quis fazer parte disso de alguma forma, a exposição está fazendo história — contou Ney, pouco antes do show.

    LEIA MAIS: público lota o Parque Lage no último dia de exposição

    O cantor está representado na exposição. Ele aparece no "Queermuseu" em duas fotografias de Luiz Fernando Borges da Fonseca: uma da "Série do Pantanal", de 1982-83, e outra da "Série da Figueira Branca", de 1975. Mas ele conta ter ficado especialmente impactado com a coleção de capas do jornal homossexual "O lampião da esquina" (editado entre 1978 e 1981), expostas em mostra paralela no Parque Lage:

    — Fui surpreendido ao ver que fui capa de três edições, não lembrava. Era muito difícil naquela época algo que fugisse da norma. Fiquei emocionado ao reencontrar essas capas.

    No palco, acompanhado do violonista Zé Paulo Becker, o cantor mostrou um repertório que definiu como "super romântico", com canções como "Olhos nos olhos", "Nada por mim" e "Último desejo" (foram sete músicas no total):

    — Não é um repertorio político, é super romântico. Como não componho, sou intérprete, quis trazer minha emoção.


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    RIO — Salta aos ouvidos, desde que surgiu com o EP “Efeito das cores” (2012), a habilidade de Mahmundi em associar seu conhecimento técnico do fazer música à vontade de criar canções acessíveis para diferentes públicos. Isso permite à artista carioca sair aplaudida em festivais indies, circuito em que costuma transitar, mas também cativar os jovenzinhos que esperavam ansiosos por seu ídolo teen — como quando abriu o show do one direction Niall Horan no Rio em outubro passado.

    “Para dias ruins” surge, então, como evolução sutil de “Mahmundi” (2016), seu disco cheio de estreia. Há faixas quentes como “Tempo pra amar” — canção que começa como um r&b sutil, quase despretensioso, mas irradia no seu minuto final numa trama crescente de coros, beats e harmonias —, mas também respiros como “As voltas”, balada que equilibra a súplica de seus versos apaixonados com a batida do violão e com o piano em tom jazzístico.

    Quando se aventura por outras praias, como o reggae em “Alegria” ou o indie eletrônico à la The XX (“Imagem” e “Felicidade”), o faz de forma delicada, com produção certeira, enquanto canta crônicas doces sobre amar demais (ou de menos), sobre mudanças, entre outras emoções.

    Para dias ruins, Mahmundi entrega, por 32 minutos, aquela interseção entre sofisticação e leveza que um bom disco pop ainda é capaz de atingir. Funciona.

    Cotação: bom.


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    RIO - O amor é a única coisa que sobrevive aos dias ruins, prega a cantora, compositora, instrumentista e produtora Marcela Vale, a Mahmundi, de 32 anos. Dois anos após seu álbum de estreia, “Mahmundi”, lançado pelo selo Skol Music, ela volta com “Para dias ruins”, primeiro trabalho para a major Universal Music. Um disco carregado — como se poderia esperar — de romantismo e de experiências de vida.

    — Passei um tempo falando muito sobre mim mesma, sobre como era ver o mar morando em um lugar violento — conta ela, que veio de Marechal Hermes e teve hits como “Eterno verão” e “Calor do amor”. — Agora quero fazer música para vários momentos da vida, sempre quis ser a trilha sonora das pessoas. Acabei virando esse lugar.

    LEIA MAIS: Crítica - O pop com leveza e sofisticação de Mahmundi

    Filha do underground carioca, Mahmundi hesitou um tanto a aceitar o convite da Universal Music, com medo de acabar tendo que descaracterizar o seu trabalho.

    — Mas aí vi que os artistas que eu mais amava eram de grandes gravadoras — diz ela, que nutre uma paixão pela música de Phil Collins.

    O efeito mais direto da mudança para a Universal Music, no fim de 2016, foi que ela passou a ter um orçamento mais generoso para gravar suas músicas. E aí pôde chamar os músicos que queria, como o baixista Alberto Continentino, para chegar ao resultado mais caprichado em faixas como “Qual é a sua?”

    Paralelamente a isso, Marcela passou pela crise dos 30 anos de idade. E começou a tentar entender a si mesma como alguém que é artista e produtora ao mesmo tempo, o que às vezes era confuso em sua cabeça. Foi necessário para ela aprender a se dividir na feitura de “Para dias ruins”, disco no qual meteu a mão na massa sonora.

    — O desafio era manter o orgânico dentro do digital, descobrir como gravar uma bateria, por exemplo. Tirar aquele som analógico que era impossível para a Marcela do primeiro álbum — conta. — Quero aprender, me especializar em timbres. Antigamente, as pessoas ralavam para tirar um som, não tinha essa parceria com os equipamentos digitais que tem hoje.

    SEGURA NA PILOTAGEM

    Depois da experiência, Mahmundi se sente mais segura na pilotagem de um disco.

    — Quero ser uma produtora com quem a galera possa contar. A produção é conversa com o artista, não é só saber qual a posição em que o microfone tem que estar. E hoje penso em me desenvolver também nos processos de mixagem e de masterização de um disco.

    Ao compor as canções de “Para dias ruins”, a artista não quis resolver tudo sozinha: contou com a ajuda de alguns parceiros, como Omar Salomão (em “Vibra”) e Qinho (em “As voltas”), com os quais trabalhou as ideias de letras e melodias que tinha.

    — Nesse disco, aconteceu uma coisa mais orgânica, de pegar violão — revela. — Mas também gosto muito daquele momento em que a melodia bate com o timbre do teclado. É mágico.

    Disco pronto, a busca de Marcela continua. Agora, ela tenta entender também como vai levar “Para dias ruins” ao palco. A opção foi por uma banda enxuta (são quatro pessoas ao todo, incluindo ela própria), “para poder viajar pelo Brasil com essa verdade das músicas”.

    — A referência mais próxima que eu tinha era a da Céu, tive que procurar a minha — diz ela, que estreia o show no próximo dia 21, em São Paulo, no Sesc Pompeia.


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    RIO - O nome do quadrinista italiano Manuele Fior estampa a capa de duas publicações recém-chegadas às livrarias brasileiras. No entanto, apesar de assinadas pelo mesmo autor, “Cinco mil quilômetros por segundo” e “A entrevista” foram lançadas originalmente em momentos distintos da carreira do artista, apresentam técnicas e estilos discrepantes e podem ser categorizadas em gêneros completamente destoantes. As 148 páginas coloridas de “Cinco mil quilômetros” alçaram Fior ao estrelato em 2010. Com 35 anos na época, o artista já tinha um histórico de publicações autorais e como ilustrador editorial, mas tornou-se um dos grandes nomes dos quadrinhos europeus ao vencer em 2011 o Fauve d’Or, prêmio de melhor álbum do tradicional Festival de Angoulême, na França, e um dos maiores reconhecimentos das HQs mundiais.

    TRIÂNGULO AMOROSO

    A obra é ambientada em cinco períodos distintos da vida dos amigos Piero, Lucia e Nicola. Em um primeiro momento, na Itália, com os três ainda adolescentes, são apresentados indícios do início de um triângulo amoroso envolvendo os dois rapazes e a garota recém-chegada à vizinhança. Os capítulos seguintes dão saltos temporais e geográficos mostrando o distanciamento e as reaproximações do trio com a passagem dos anos. Em seguida ao uso de uma paleta de cores com predomínio de verde e amarelo no capítulo inicial, ambientado na Itália, Fior enfatiza o azul no trecho seguinte, tendo a Noruega como cenário. Posteriormente, a aquarela do autor ganha tons de sépia quando um dos personagens chega ao Egito. Em determinado momento, dois dos personagens ficam separados pelos cinco mil quilômetros do título.

    —Acho que tentei com esse livro colocar um pouco de ordem nos meus pensamentos. Eu tinha uma vida muito nômade na época, e as coisas acabaram um pouco bagunçadas; me refiro a relacionamentos, ambições profissionais e por aí vai — conta Fior.

    Produzido pelo quadrinista durante um período em que viveu na Noruega, o álbum também serviu como uma espécie de terapia para o autor. Ele conta que suas principais inspirações foram temores e aflições que sentia naquele momento:

    — Foi uma forma de exorcizar alguns dos medos e dos arrependimentos que eu tinha, e impus toda essa carga para os meus pobres três personagens, que vivem, sofrem e perdem exatamente como aconteceu comigo.

    Lançado em 2014, “A entrevista” começou a ser concebido por Fior logo após “Cinco mil quilômetros” ser reconhecido no festival francês. Mais confiante em seu trabalho, ele focou seus esforços em uma primeira tentativa de abandonar temas autobiográficos e investir em uma ficção científica. Ao contrário da tinta acrílica colorida de seu álbum prévio, ele optou por carvão e nanquim para narrar um romance com ares de thriller, ambientado em um futuro próximo, envolvendo um psicólogo e uma paciente, ambos testemunhas de possíveis aparições alienígenas.

    — Não há nenhum motivo racional para o uso de cada técnica. Normalmente, quando a ideia de um livro vem à mente, também tenho um vislumbre de como ele será. Depois busco alguma técnica que me permita chegar o mais próximo possível a essa imagem mental. É um processo que vai se definindo à medida que vou criando — explica Fior.

    No caso do preto e branco de “A entrevista”, ele acentua ainda mais o tom sobrenatural da obra. Em seguida ao flagrante de sinais geométricos no céu próximo à sua casa, o psicólogo Raniero vê seu casamento em crise afundar ainda mais à medida que aumenta seu fascínio pela jovem Dora, outra testemunha das aparições extraterrestres e participante de um culto baseado na não exclusividade emocional e sexual, cujos membros apresentam dons telepáticos.

    SEM SINAL FECHADO

    A principal inspiração do autor foi a chamada “Trilogia da incomunicabilidade”, do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, composta pelos clássicos “A aventura” (1960), “A noite” (1961) e “O eclipse” (1962). Em comum entre os três filmes e a HQ está o diálogo falho entre seus personagens e suas dificuldades em viver em um mundo à frente de seu tempo.

    — Se você é familiarizado com esses filmes, você encontrará o mesmo fascínio pelo desconhecido, pela psicologia distorcida de personagens agindo enquanto refletem sobre suas existências e suas motivações. Eu não sou um grande admirador de histórias com apenas uma única interpretação, com apenas uma única solução no fim — afirma Fiori.

    Premiada com o troféu de Melhor Quadrinho de 2014 na Comic Con de Napoli, “A entrevista” ganhará inclusive uma espécie de continuação. O autor conta estar trabalhando no momento em uma graphic novel longa, ainda sem previsão de lançamento. Com o título provisório de “Celestia” e ambientada em Veneza, ela terá mais uma vez a personagem Dora como protagonista.


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    RIO - Um pocket show surpresa do cantor Ney Matogrosso encerrou o último dia da exposição "Queermuseu" no Parque Lage. O próprio artista teve a ideia de se apresentar lá, depois de ter visitado a mostra nesta última semana em que ela esteve em cartaz.

    — Fiquei muito impressionado com todo o movimento em torno da exposição, com sua abrangência, com o fato de todos os monitores serem LGBT. Quis fazer parte disso de alguma forma, a exposição está fazendo história — contou Ney, pouco antes do show.

    LEIA MAIS: Público lota o Parque Lage no último dia de exposição

    O cantor está representado na exposição. Ele aparece no "Queermuseu" em duas fotografias de Luiz Fernando Borges da Fonseca: uma da "Série do Pantanal", de 1982-83, e outra da "Série da Figueira Branca", de 1975. Mas ele conta ter ficado especialmente impactado com a coleção de capas do jornal homossexual "O lampião da esquina" (editado entre 1978 e 1981), expostas em mostra paralela no Parque Lage:

    — Fui surpreendido ao ver que fui capa de três edições, não lembrava. Era muito difícil naquela época algo que fugisse da norma. Fiquei emocionado ao reencontrar essas capas.

    No palco, acompanhado do violonista Zé Paulo Becker, o cantor mostrou um repertório que definiu como "super romântico", com canções como "Olhos nos olhos", "Nada por mim" e "Último desejo" (foram sete músicas no total):

    — Não é um repertorio político, é super romântico. Como não componho, sou intérprete, quis trazer minha emoção.


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    BRASÍLIA — As reações a "Torre das Donzelas", filme que abriu, neste sábado, a mostra competitiva do 51º Festival de Brasília, surpreenderam até quem frequenta o evento há anos.

    A sessão foi aplaudida de pé por cinco minutos, no início e no fim. Choros emocionados vinham da plateia — onde, aliás, estavam pelo menos oito ex-presas políticas que, na ditadura, viveram na tal torre do título, apelido dado ao conjunto de celas femininas do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Essas mulheres são personagens centrais do documentário dirigido por Susanna Lira, que conta ainda com depoimentos inéditos e reveladores de Dilma Rousseff.

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    "Torre das Donzelas" causou comoção porque apresenta relatos perturbadores sobre a tortura vivida diariamente dentro do local. Mas, numa reviravolta surpreendente, também explica como as prisioneiras transformaram o confinamento num espaço de resistência, sororidade e sobrevivência. Ainda neste domingo, as "donzelas" eram recebidas com aplausos por onde passassem.

    — Entendo o filme como um testemunho, que é diferente de memória, porque há a escuta. Eu falo, vocês ouvem — diz Rita Sipahi, uma das entrevistadas do filme, hoje conselheira da Comissão de Anistia.

    Na primeira metade do filme, os relatos são desconcertantes. "Parecia um campo de concentração", diz uma das entrevistadas ao descrever a prisão. Uma delas diz ter visto uma colega pesar 37 quilos. Trailer de 'Torre das Donzelas'

    Dilma lembra dos termos machistas usados pelos torturadores, que obrigavam as mulheres a se despir. "Nudez é algo pior para a mulher do que para o homem, porque o torturador é homem", diz a ex-presidente.

    — Comecei a colher os relatos há sete anos como forma de resgatar a nossa memória. Hoje, eles são um alerta — afirmou Susanna Lira, fazendo um paralelo com o Brasil de hoje.

    Documentarista especializada em contar histórias de mulheres vítimas de opressão e violência — são dela obras como "Mataram nossos filhos" (2016), "Damas do samba" (2015) e "Legítima defesa" (2017) —, Susanna optou por um recurso incomum para extrair as histórias no documentário.

    Pediu que as militantes — que à época eram, em sua maioria, integrantes de organizações de combate à ditadura — desenhassem a Torre a partir de suas lembranças. Segundo a diretora, nenhuma ilustração ficou igual à outra. Construiu-se, então, uma instalação num estúdio de São Paulo que misturava todas as versões. O resultado é uma cenografia que lembra "Dogville" (2003), de Lars von Trier, citado pela diretora como referência.

    A emoção evidenciada no rosto das mulheres ao pisar no espaço pela primeira vez é de partir o coração. É ali que ocorrem todas as entrevistas — com exceção de Dilma, que na época precisou se defender no processo de impeachment.

    — A Dilma tem uma profunda relação com a gente — afirma Rita. — Somos a família dela. Quando ela precisa, chama a gente.

    torredonzelas.jpgAna Miranda, outra ex-presa e hoje ativista de direitos humanos, elogia a capacidade de Dilma falar de maneira objetiva e analítica — habilidade que, segundo ela, ainda é desconhecida por parte de brasileiros que acompanha apenas a sua atuação política e pública.

    "A prisão tenta tirar duas coisas de você: o espaço e o tempo. Então foi isso o que fizemos: tomamos controle do espaço e do tempo", afirma a ex-presidente numa cena do documentário, arrancando aplausos e gritos de apoio da plateia.

    Mas como fazer isso? Ora, lendo livros, praticando esportes e exercícios, estabelecendo rotina, trocando conhecimento e deixando o local limpo — quase tudo à revelia dos militares. Algumas, inclusive, tiveram sua formação política na cadeia. É aí que o filme deixa o tom sombrio de lado para tornar-se uma celebração da sobrevivência, resistência e união feminina. As mulheres passaram até a se vestir bem dentro da prisão — algo aparentemente "fútil", como define uma delas no longa, mas que no contexto do aprisionamento gera momentos de alegria.

    — Há o processo inicial da dor, da tortura, mas também há o acolhimento entre elas. Temos que fazer isso hoje também, porque a alegria é uma forma de resistência — afirma Susanna, sem segurar as lágrimas.

    — Contruímos na Torre um espaço de liberdade — acrescenta Marlene Soccas, uma ex-presa que também marcou presença no Festival de Brasília. — Fomos e seremos sempre a favor da liberdade. Na cela havia um cartaz com gaivotas voando. Uma freira que nos visitou comentou: "Como deve ser triste estar presa diante deste painel". O que ela não sabe é que meu corpo estava preso, mas minha cabeça voava o mundo inteiro.

    Num dos momentos finais do documentário, Dilma resume, em duas palavras, o resultado da experiência: "Nós vencemos."

    No primeiro dia de competição, também foi exibida a ficção "Los silencios", de Beatriz Seigner. O filme já havia sido projetado em maio, na mostra Quinzena dos Realizadores, em Cannes.

    *O repórter viajou a convite do festival


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    RIO - Em quais utopias se agarrar nesses tempos sombrios? Plantada em terreno instável e cercada de incertezas, a arte propõe respostas na 14ª edição do festival Multiplicidade, que ocupa a partir desta segunda-feira o Centro Cultural Oi e o Instituto de Arquitetos do Brasil, localizados no mesmo quarteirão do Flamengo.

    Espaços utópicos são o tema deste ano, que viu o interior do IAB ser transformado num inusitado ambiente de acolhimento: o penetrável Tape, estrutura construída com metros de fita adesiva pelo coletivo alemão/croata Numen.

    — Tape foi todo feito sem usar ferramentas, da mesma forma que os insetos fazem seus casulos. É uma espécie de arquitetura primordial — diz um dos integrantes do Numen, o designer industrial Sven Jonke. — É um espaço muito orgânico, como um útero, no qual você entra rastejando e vive uma experiência regressiva, que te dá certa insegurança. Ele parece sólido mas é muito elástico.

    ZONA INCLASSIFICÁVEL

    A subversão da arquitetura que Tape encarna foi o que atraiu o curador do Multiplicidade, Batman Zavareze.

    — Ele está numa zona inclassificável — diz. — Os integrantes do Numen são considerados artistas pelos arquitetos e arquitetos pelos artistas. E, para um festival que é conhecido por suas estranhezas sonoras e visuais, obras como as que eles criaram podem trazer desde a criança de cinco anos de idade até o jovem adulto de 75. Tape põe você entre o medo de prosseguir e o fetiche de entrar e ser acolhido.

    78853903_SC - A obra Tape do coletivo NUMEN que estará exposta no Multiplicidade 2018.jpg

    Outra intervenção arquitetônica do Multiplicidade 2018 é a do carioca Pedro Varella na vitrine Tech_Nô, na área externa do prédio. Uma obra que tomou rumos impensáveis, segundo Batman, “por um feliz acidente”: o muro que separa o Oi Futuro do terreno destinado a um grande projeto imobiliário foi interditado e condenado pelos engenheiros do empreendimento, o que inviabilizou os planos originais do artista.

    — Enquanto acompanhávamos o processo de escoramento do muro, comecei a sugerir pequenas intervenções. Havia uma ambiguidade que me interessava, de não saber o que era o necessidade técnica e o que era proposta artística — elabora Pedro. — Além disso, aquela é uma área de conflito, que usamos como uma espécie de metáfora da luta da arte contra a força do capital.

    NA CORDA BAMBA

    Não por acaso, o mantra do Multiplicidade 2018 é “resistir e existir como única saída [exit] possível”.

    — Estamos vivendo momentos difíceis. Realizar o Multiplicidade é um ato de resistência — acredita Batman Zavareze, que este ano pôde enfim trazer ao Brasil aquele que considera “a pessoa com mais propriedade para falar sobre resistência”: Phill Niblock.

    78853591_SC - Phill Niblock atração do Multiplicidade 2018.jpg

    Mestre americano da música e do cinema de vanguarda, que trabalhou com nomes como John Cage e Sun Ra, Phill chega ao Rio aos 85 anos para apresentar hoje no Oi Futuro, às 20h30m, sua “Environments Series”: obra audiovisual que será projetada em três telas simultaneamente, criando uma experiência imersiva, com trilha do próprio Niblock (e executada por ele com o músico Lívio Tragtenberg).

    O exemplo do americano inspira as outras atrações do Multiplicidades 2018: a artista sonora Sanannda Acácia (que apresenta hoje no Oi, às 19h30m, a performance “Aproximação por Quasicrystal”) e Fernando Velázquez, artista uruguaio que traz “Iceberg”, obra de realidade virtual.

    SERVIÇO

    Oi Futuro: Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo - 3131-3096. Ter a dom, das 11h às 20h. Abertura segunda (17), das 19h às 23h. Até 18 de novembro. Livre. GRÁTIS.

    Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB): Rua do Pinheiro 10, Flamengo. Ter a dom, das 11h às 20h. Abertura segunda (17), das 19h às 23h. Até 18 de outubro. Livre. GRÁTIS.


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