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    SÃO PAULO - "Benzinho" foi escolhido como representante brasileiro na disputa por uma indicação ao prêmio de melhor filme ibero-americano no Goya 2019, o equivalente espanhol ao Oscar. Antes de chegar à decisão, na manhã de quarta-feira, a comissão de seleção que escolheu a comédia dramática dirigida por Gustavo Pizzi se reuniu por uma hora na sede da Agência Nacional do Cinema (Ancine), no Rio. A ata da reunião, com o anúncio, foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira.

    A comissão justificou a escolha dizendo que o "Benzinho" foi considerado uma "obra cinematográfica com consistente marca autoral e força criativa". Além disso, salientou na mesma nota que apresenta "um universo genuinamente brasileiro, com capacidade de se comunicar com plateias de todo o mundo".

    LEIA MAIS: 'O Grande Circo Místico' é a aposta do Brasil ao Oscar 2019

    Profissionais indicados por entidades do setor audiovisual brasileiro compuseram a comissão: Josiane Osório de Carvalho, por indicação do Fórum dos Festivais; Marcelo Müller, por indicação da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine); João Daniel Tikhomiroff, por indicação do Programa Brasil de Cinema; Adriana de Lucena Navais Dutra, por indicação da Academia Brasileira de Cinema (ABC); e Gustavo Ferreira Rolla, por indicação da Ancine.

    - Ficamos super felizes com a escolha, até porque estamos em cartaz em muitos países ibero-americanos. Incluindo a Espanha, onde o filme estreou dia 3 de agosto, com o título 'Siempre juntos', e está em 46 salas no país inteiro. Só em Madri, foi lançado em três salas e, depois, ampliou para cinco - disse o diretor do longa.

    BONEQUINHO: 'Benzinho' narra dificuldade dos personagens sem vitimizá-los

    Além de "Benzinho", participaram da seleção mais 20 filmes, incluindo "O Grande Circo Místico", de Cacá Diegues. Na segunda-feira, o mais recente longa de Diegues foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2019.

    Por enquanto, Pizzi preferiu não comentar a escolha da comissão de seleção do Oscar. Só disse achar que uma decisão como essa deve ser sempre tomada levando em conta o filme enquanto projeto cinematográfico, e as chances que tem de alcançar ao menos uma indicação.

    - São os filmes,e a carreira deles, que têm de ser levados em conta. Aqueles que têm força para chegar - avalia.

    74280883_%27Benzinho%27 de Gustavo Pizzi filme brasileiro que abre o Festival de Sundance 2018. Karine T.jpg

    Em 'Benzinho', Irene (Karine Teles) mora com o marido Klaus (Otávio Müller) e mais quatro filhos numa cidade próxima do Rio. Quando o primogênito é convidado para jogar handebol na Alemanha, ela terá de lidar com a síndrome do ninho vazio. Em cartaz há três semanas, o filme acumula até o momento 23 mil ingressos vendidos e renda de cerca de R$ 370 mil.

    - No Brasil, o filme tem crescido nos cinemas. Da primeira para a segunda semana, aumentou muito de circuito. Estamos batalhando para levar as pessoas para o cinema, porque o comportamento do público murou muito de um tempo para cá. Nossa sorte é que as recomendações pessoais estão muito fortes. E isso tem sido maravilhoso - completa o diretor.

    A cerimônia de entrega dos prêmios Goya será realizada no dia 2 de fevereiro de 2019, em Sevilha. A premiação ocorre desde 1987 e é organizada pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha.

    Veja a lista completa de filmes que entraram na disputa:

    "A Filosofia na Alcova", de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

    "A Moça do Calendário", de Helena Ignez

    "A Tecnologia Social", de Patricia Innocenti

    "Antes Que Eu Me Esqueça", de Tiago Arakilian

    "Benzinho", de Gustavo Pizzi

    "Dedo na Ferida", de Silvio Tendler

    "Ferrugem", de Aly Muritiba

    "Henfil", de Angela Zoé

    "Meu Corpo é Político", de Alice Riff

    "O Desmonte Do Monte", de Sinai Sganzerla

    "O Grande Circo Místico", de Carlos Diegues

    "Querida Mamãe", de Jeremias Moreira

    "Xingu Cariri Caruaru Carioca", de Beth Formaggini

    "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra

    "Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi

    "Não Devore Meu Coração', de Felipe Bragança

    "Paraíso Perdido", de Monique Gardenberg

    "Praça Paris", de Lucia Murat

    "Silêncio no Estúdio", de Emília Silveira

    "Unicórnio", de Eduardo Nunes

    "Yonlu", de Hique Montanari


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    RIO - Para quem teve um AVC em 2002, caiu do palco em 2012, ostenta um marca-passo desde 2015 e mês passado levou um susto com o coração, o cantor Sérgio Reis apresenta, aos 78 anos, uma vitalidade invejável. Em fim de mandato como deputado federal (cargo para o qual não tentará se reeleger), ele até que deu um tempo dos shows. Mas nesta quinta-feira, canta em Contagem, Minas Gerais, e na sexta estará no Rio para autografar, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, o livro "Sérgio Reis: Uma vida, um talento".

    LEIA MAIS: Sérgio Reis passa por cirurgia no coração e está internado em São Paulo

    E projetos não faltam a Sérgio para depois de divulgar a biografia escrita pelo jornalista Murilo Carvalho (que também estará presente no Rio para os autógrafos): vai cuidar do lançamento de "Alma gêmea", disco com a mulher, a cantora Angela Reis, e pretende acabar de gravar seu primeiro álbum solo em cinco anos — que não terá nada a ver com a música caipira. Uma das faixas é um dueto com Guilherme Arantes em "Planeta água". O cantor conta que também está atrás de Gilberto Gil, para sugerir uma dobradinha vocal em uma das músicas do baiano.

    — Serão só clássicos, para o povo ouvir e viajar. Tem uma geração que não me conhece como cantor romântico — diz.

    Sim, porque antes de tornar-se o Sérgio Reis com chapéu, berrante e sucessos da música sertaneja como "Menino da porteira", "Panela velha" e "Pinga ni mim", ele era somente o urbaníssimo paulistano da Zona Norte Sérgio Bavini, que, no começo dos anos 1960, nos intervalos do trabalho como corretor de seguros, tentava a carreira como cantor de rock.

    O livro revela que, então, seu nome de guerra era Johnny Johnson. Foi aí que Teddy Vieira (compositor que anos mais tarde lhe daria "O menino da porteira", seu primeiro sucesso na música caipira) sugeriu que ele usasse o nome de batismo e o sobrenome da mãe. Foi aí que surgiu o Sérgio Reis, sucesso na Jovem Guarda com o rock romântico "Coração de papel".

    A guinada para a música sertaneja, em 1973, com a mão de Teddy, abriu caminhos inesperados para o cantor. O sucesso de "Menino da porteira" foi tão grande que lhe rendeu um papel de destaque num longa-metragem baseado na canção (de 1976, um dos maiores sucessos do cinema brasileiro, com oficiais 2,5 milhões de espectadores) e outros, também principais, nos filmes "Mágoa de boaideiro" (1977) e "Filho adotivo" (1984).

    — O pessoal andou querendo fazer uns outros filmes comigo, o problema é que o cinema brasileiro não tinha controle de bilheteria. Logo que acabava o primeiro rolo do filme num cinema, eles rapidamente o levavam para uma outra cidade, a uns 50 quilômetros. "O menino da porteira" deve ter feito uns quatro milhões de espectadores assim — aposta Sérgio, que depois brilhou nas novelas "Pantanal" (1990) e "O Rei do Gado" (1996), ambas de Benedito Ruy Barbosa.

    Capa biografia de Sérgio Reis.jpg

    Murilo Carvalho, que há 20 anos dirige Sérgio Reis no programa de rádio "Siga bem, caminhoneiro", diz que tentou retratar no livro "um brasileiro que se transforma ao longo de sua carreira" (aliás, as mais recentes incursões do cantor pelo sucesso foram com um projeto em dueto, o Amizade Sincera, ao lado do cantor e compositor Renato Teixeira).

    — Sérgio Reis é um cidadão que aos poucos foi descobrindo e se encantando pelo Brasil. Ele tem amigos por todo canto — diz o autor da biografia.

    "Desde cedo, o Brasil representou para mim uma aventura que precisava ser descoberta", disse o cantor a Murilo, em um dos vários depoimentos para o livro. "Eu sonhava com fazendas, com boiadas, com uma vida livre. Assim que comecei a viajar, fazendo shows, ainda no tempo da Jovem Guarda, esse desejo de conhecer melhor o Brasil se aprofundou em mim. E, depois, a música sertaneja era a que eu mais gostava de escutar."

    LEIA AINDA: A estrada sem fim de Sérgio Reis

    Noite de autógrafos de "Sérgio Reis: Uma vida, um talento"

    Onde: Livraria da Travessa do Shopping Leblon — Av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A, Leblon (3138-9600).

    Quando: Sexta-feira, às 19h.

    Autor: Murilo Carvalho.

    Editora: Tinta Negra - Grupo Editorial Zit.

    Páginas: 256.

    Quanto: R$ 34,90.


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    RIO — É surpreendente que o esboço de “Domingo”, longa que abre hoje o 51º Festival de Brasília, tenha nascido há mais de uma década. O filme de Fellipe Barbosa (“Gabriel e a montanha”) e Clara Linhart põe no centro — e no entorno — da trama uma carga política aparentemente feita para se comunicar com o Brasil pré-eleições gerais do mês que vem. Ou seja, com o país de agora.

    La está o tema debatido à exaustão nas redes sociais e em rodas de conversa: o medo (ou esperança, dependendo do interlocutor) em relação a um novo governo. O longa, aplaudido no Festival de Cinema de Veneza, onde foi exibido na mostra Venice Days, revê a posse de Lula ,em 1º de janeiro de 2003, do ponto de vista de uma família endinheirada que passa o ano novo num sítio localizado na região sul do país.

    — A dificuldade de tirar um filme do papel é quase sempre motivo de tristeza, mas nesse caso há algo mágico no fato de poder lançá-lo em momento tão conturbado. Parece até que não foi por acaso — diz Clara, parceira de longa data de Fellipe, com quem trabalha desde o curta “Beijo de sal” (2007), quando assinou a assistência de direção.

    ELITE X EMPREGADOS

    Da mesma família de “Que horas ela volta” (2015), “As boas maneiras” (2017), “O som ao redor” (2012) e “Domésticas” (2001), para citar algumas influências da dupla de cineastas, “Domingo” trata do embate entre elite e empregados. A trama, escrita por Lucas Paraízo em 2005, tem início com a chegada da matriarca Laura (Ittala Nandi) e do filho caçula Miguel (Ismael Caneppele) no sítio onde vive o mais velho, Nestor (Augusto Madeira), e sua mulher, a fútil Bete (Camila Morgado). Aos poucos, a dinâmica familiar revela ímpetos de homofobia, uso de drogas e traições.

    Domingo_snap_20180806_000007.jpgLaura beira a caricatura da mulher rica insensível — e paranoica com a possibilidade de perder os privilégios com a ascensão social dos pobres. Destrata a empregada Inês (Silvana Silvia) e a filha desta, Rita (Maria Victoria Valencia), vítima de assédio por um dos adolescentes da família. Laura também quer demitir o caseiro José (Clemente Viscaíno) e teme pela possibilidade de o casarão ser invadido por cidadãos sem-terra.

    Na tevê, Lula faz o discurso de posse e fala em tratar o povo brasileiro com respeito e igualdade, sem distinção de classe, etnia e crença. O contraste entre a fala do presidente recém eleitoe o dia no sítio imprime um tom satírico à história.

    — Em 2007, com o roteiro em mãos, já dava para rir desse medo ridículo. É claro que a “ameaça” das invasões do MST se provou absurda, e o Brasil não virou uma Venezuela. Mas o medo ainda paira no ar, hoje, de forma difusa, só não sabemos do quê — afirma Clara.

    Laura beira a caricatura da mulher rica insensível — e paranoica com a possibilidade de perder o privilégio com a ascensão social dos pobres. Destrata a empregada Ines (Silvana Silvia) e a sua filha Rita (Maria Victoria Valencia), que, aliás, é vítima de assédio por um dos adolescentes da família. Laura também quer demitir o caseiro José (Clemente Viscaíno) por picuinhas e cita a possibilidade de ter o casarão invadido por sem-terra.

    Enquanto isso, ao fundo, na televisão, Lula faz o discurso de posse e fala em tratar o povo brasileiro com respeito e igualdade, num mundo (utópico?) sem distinção de classe, etnia e crença. O contraste entre a fala do novo presidente e o dia naquele sítio empresta à história um tom satírico.

    — Em 2007, com o roteiro em mãos, já dava para rir disso, desse medo ridículo. É claro que a “ameaça” de o MST invadir (terras habitadas pela elite) se provou absurda, e o Brasil não virou uma Venezuela. Mas o medo ainda paira no ar de forma difusa, não sabemos do quê — afirma Clara.

    Fellipe vai além:

    — A preocupação com a violência e perdas de direitos aparece tanto na direita quanto na esquerda e não dá para minimizar isso.

    Os empregados de “Domingo”, porém, se recusam a ser vítimas. Essa tomada de consciência já era um tema flertado por Barbosa em “Casa Grande”, mas agora descamba para a vingança — uma reviravolta não prevista no roteiro, mas que se tornou necessária nas filmagens.

    — A gente não queria só retratar uma festa de família feliz, apenas a afirmação da hipocrisia e nada mais. Queríamos também atender às demandas do presente. A tomada de consciência dos empregados não é mais suficiente; é preciso fazer algo com ela. Esse filme talvez seja menos conciliatório do que meus trabalhos anteriores, mas é um reflexo do nosso tempo, em que os entendimentos não são tão bem vistos — conclui Barbosa.

    FILMES PARA FAZER A PLATEIA PENSAR

    Muitos dos nove longas que disputam o troféu Candango na mostra competitiva também ganham relevância particular por causa do contexto político em que são exibidos. Quem diz é o diretor artístico do festival, Eduardo Valente.

    — Essa edição continua com a tradição de privilegiar filmes que desafiam a plateia a pensar. Mas é claro que eles ganham um novo sentido no contexto da eleição, da mesma forma que a primeira edição (em 1965) foi ressignificada com a instauração da ditadura — afirma Valente.

    Os longas em competição são “Bixa travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (SP); “Bloqueio”, de Quentin Delaroche e Victória Álvares (PE); “Ilha”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio (BA); “Los silencios”, de Beatriz Seigner (SP/Colômbia/França); “Luna”, de Cris Azzi (MG); “New life S.A.”, de André Carvalheira (DF); “A sombra do pai”, de Gabriela Amaral Almeida (SP); “Temporada”, de André Novais Oliveira (MG); e “Torre das donzelas”, de Susanna Lira (RJ).

    Chama atenção a paridade de gênero: são seis diretores homens e seis mulheres.

    — Na competição do último Festival do Rio, as mulheres já eram maioria — lembra Valente. — O que fica claro é que estamos vivendo uma realidade diferente de todas as outras décadas. É uma questão mundial, basta lembrar do protesto em Cannes, em maio (quando 82 estrelas do cinema, mesma quantidade de diretoras indicadas à premiação ao longo dos 71 anos de festival, manifestaram-se a favor da igualdade). Existe uma sub-representação sendo questionada no mundo inteiro, e a realidade de fato está sendo mudada.bixatravesty1ok (1).jpg

    — Essa edição continua com a tradição de privilegiar filmes que desafiam a plateia a pensar. Mas é claro que eles ganham um novo sentido no contexto da eleição, da mesma forma que a primeira edição (em 1965) foi ressignificada com a instauração da ditadura — afirma Valente.

    Os longas em competição são “Bixa travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (SP); “Bloqueio”, de Quentin Delaroche e Victória Álvares (PE); “Ilha”, de Ary Rosa e GlendaNicácio (BA); “Los silencios”, de Beatriz Seigner (SP/Colômbia/França); “Luna”, de Cris Azzi(MG); “New life S.A.”, de André Carvalheira (DF); “A sombra do pai”, de Gabriela Amaral Almeida (SP); “Temporada”, de André Novais Oliveira (MG); e “Torre das donzelas”, de Susanna Lira (RJ).

    Chama atenção a paridade de gênero: são seis diretores homens e seis mulheres.

    — Na competição do último Festival do Rio, as mulheres já eram maioria — lembra Valente. — O que fica claro é que estamos vivendo uma realidade diferente de todas as outras décadas. É uma questão mundial, basta lembrar do protesto em Cannes, em maio (quando 82 estrelas do cinema, mesma quantidade de diretoras indicadas à premiação ao longo dos 71 anos de festival, manifestaram-se a favor da igualdade). Existe uma sub-representação sendo questionada no mundo inteiro, e a realidade de fato está sendo mudada.


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    RIO — Em uma olhada superficial, Nilze Carvalho parece um trabalho de ficção científica: uma mulher de, vá lá, 40 anos que está comemorando quatro décadas de carreira. Uma falha no espaço-tempo? Na verdade, ela tem 49 e, sim, começou ainda criança.

    — Foi com sete anos, para ser mais exata — diz ela, que está lançando hoje, às 20h, no Teatro Rival, o CD/DVD “40 anos (ao vivo)”, em que dá uma passada por essas quatro décadas, mas, segundo sua filosofia atual, relax. — É meu primeiro registro audiovisual como artista solo, cantando. Então pensei em algo que pinçasse o que tenho feito nos últimos anos, não necessariamente as coisas lááááá de trás.

    ANCHIETA E NOVA IGUAÇU

    A ênfase no passado não vem à toa: a pequena Nilze pegou um cavaquinho pela primeira vez quando tinha 5 anos, e morava com a família em Anchieta.

    — Meu pai era trompetista, tocava em bailes de carnaval em um clube lá perto de casa, e um dia deram a ele um cavaquinho — lembra ela. — Era um cavaco mínimo, pequenininho, embora de boa qualidade. Então eu, com minhas mãozinhas de criança, fui quem mais se interessou.

    Crítica: A história de Nilze Carvalho, uma artista completa

    A coleção de discos do pai, que tinha como principais pilares o samba e a música instrumental, guiou os primeiros passos da menina.

    — Lá em casa, primeiro em Anchieta, depois em Nova Iguaçu, para onde fomos, tocava Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e Abel Ferreira o tempo todo — diz. — Assim, comecei a tirar som. Depois, meu pai comprou um violão, e nós dois começamos a tocar.

    Nilze Carvalho interpreta 'Tudo se transformou'Na cidade da Baixada Fluminense, Nilze frequentava um programa de rádio, o que acabou atraindo a atenção de um jornalista que a levou, aos 7 anos, a se apresentar no “Fantástico”.

    — Eu já ganhava uns cachês (e gastava tudo em bala), mas considero esse programa o marco inicial da minha profissão — conta ela. — Quer dizer, também já se passaram mais de 40 anos, mas a gente arredonda.

    No fim das contas, o DVD comemorativo, gravado ao vivo no estúdio, traz algumas músicas do início da trajetória de Nilze, como “Barracão” (em que ela homenageia os ídolos Jacob e Elza Soares) e o choro “Urubu malandro”.

    — Tem uma menina ótima, Laila Aurore, no cavaquinho, mas eu também pego os instrumentos e toco umas coisas, uns intermezzos — diz ela, que é formada em Música pela Uni Rio e viciada confessa em estúdio e tecnologia.

    Sempre vista com um instrumento nas mãos (além do cavaco e do bandolim, também toca violão como gente grande), Nilze, depois de equilibrar muitos pratos e projetos, resolveu ser apenas cantora.

    — A vida me levou a isso — diz, com simplicidade. — Vamos combinar que a música instrumental exige muito mais, né? Você tem que pegar o instrumento o tempo todo, estar sempre afiado. E a música cantada paga melhor as contas, isso também é importante.

    Embora formada no instrumental, Nilze começou a cantar cedo — o que ela não começou a fazer cedo? —, nas idas à Europa que começaram na adolescência e que culminaram com uma etapa de sete anos no Japão, sempre regada a choro e a samba.

    — Quando voltei, a Lapa estava estourando, e começaram a me ver como uma cantora “nova”. Aí eu disse: “Ok, né?”. Deixei a vida me levar, e estou aqui.

    “40 anos (ao vivo)”

    Quando: Hoje, às 20h. Onde: Teatro Rival Petrobras, Rua Álvaro Alvim 33, Centro (2240-9796). Quanto: De R$ 30 a R$ 60. Classificação: 18 anos.


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    RIO - Pouco importam quais 40 anos de carreira Nilze Carvalho está comemorando, já que 2018 não bate redondo com a primeira vez em que ela empunhou o bandolim, ou que gravou um disco, ou que se profissionalizou, ou ainda que descobriu ser uma cantora de samba, ou melhor, de música brasileira, com voz e estilo para formar na linha de frente de qualquer seleção. O disco comemorativo, gravado ao vivo, confirma. É Nilze passando em revista não apenas 40 anos, mas sua história.

    Nilze Carvalho 'arredonda' 40 anos de carreira com DVD e show

    O repertório de Nilze Carvalho vem cobrindo praticamente todos os gêneros da melhor música brasileira. Já foi basicamente de choro, quando ela, menina, aos 12 anos, estreou em disco. Mas logo se ampliou, sobretudo a partir da formação do Sururu na Roda, um quarteto cuja proximidade com o samba a levou a cantar — e cantar bem.

    Nilze Carvalho interpreta 'Tudo se transformou'O show de 40 anos, produzido por ela, documenta essa fase, em que a compositora se une a nomes tão diferentes e, ainda assim, artistas de uma mesma arte: Dona Ivone Lara e Gonzaguinha, Nei Lopes e Ivan Lins, Almir Guineto e Luís Antônio, Monsueto e Sivuca, Dominguinhos e Fausto Nilo, João Bosco e Aldir Blanc. É impressionante como Nilze se sente à vontade com todos eles. E como suas composições se situam no mesmo nível de clássicos como “Me deixa em paz” e “Barracão”.

    Ausências sentidas são pelo menos um samba de Nélson Cavaquinho (o disco do centenário dele, em 2011, é primoroso) e outro de Cartola, a cuja obra Nilze poderia ter se dedicado bem mais. Quem sabe ela o faça no ano que vem, nos festejos dos seus 50 de vida.

    COTAÇÃO: BOM


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    SIMONE MOTA

    78640549_SC - Rio de Janeiro RJ 31-08-2018 - Jovens roteiristas da periferia Simone Mota no Muse.jpgA carioca Simone Mota tem desde 2011 uma carreira de autora de literatura infantil, com nove livros publicados — o último deles lançado no mês passado, “Que cabelo é esse, Bela?”. Agora, aos 44 anos, ela procura trilhar caminho no audiovisual.

    — Queria experimentar outras possibilidades narrativas para tratar de escritores negros que venho estudando — conta.

    Seu projeto no laboratório da Flup Pensa é uma série inspirada em Lima Barreto e que se passa nos dias de hoje, envolvendo o bairro onde o escritor viveu, Todos os Santos.

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    — Minha ideia era falar de representatividade racial e regional, a partir da relação de Lima Barreto com seu bairro. O protagonista é um jornalista negro, que não se considera negro e que não tem relação com seu bairro de origem, o mesmo Todos os Santos. Com a morte da mãe, que deixa para ele um livro de crônicas do autor, ele se volta para essa origem.

    VICTOR RODRIGUES

    78640516_SC - Rio de Janeiro RJ 31-08-2018 - Jovens roteiristas da periferia Victor Rodrigues no.jpgRecém-formado em cinema pela UFF, Victor Rodrigues, de 24 anos, tem origem no teatro — que fazia desde quando morava em Uberlândia (MG), sua cidade natal. Interessado em melodrama e em literatura fantástica, ele encontrou no gênero terror o terreno ideal para seu primeiro longa. É este projeto que ele desenvolve no Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual.

    — Meu personagem principal é Bento, que vem do interior para o Rio, onde encontra um anúncio de emprego e começa a trabalhar numa floricultura. Sua colega de trabalho, Ariela, se aproxima dele e um dia o leva a uma casa vazia que depois ele descobre ser a casa dos patrões. E coisas estranhas começam a acontecer ali — relata Victor.

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    Bento descobre que ele faz parte de um experimento, e que a casa é uma espécie de observatório.

    — A base de tudo é a história da eugenia no Brasil— conta Victor, que tem como referência para o filme o conto “Casa tomada”, de Julio Cortázar.

    LAURA DE CARVALHO

    78640530_SC - Rio de Janeiro RJ 31-08-2018 - Jovens roteiristas da periferia Laura de Carvalho n.jpgAntes de cursar Antropologia, a brasiliense Laura de Carvalho fez teatro por sete anos. Na universidade, ela tomou contato com o formato de roteiro, mas nunca tinha pensado em fazer algo como a Flup Pensa.

    — Por impulso, no último dia me inscrevi, consegui ser selecionada e estou aqui — lembra.

    A história que ela desenvolve no laboratório vem de memórias familiares — a mãe de Minas Gerais, o pai de Brasília — e trata de uma tradição pouco falada em filmes e mesmo na literatura: as garrafadas, bebidas com ervas que prometem tratar de todos os males.

    — As garrafadas sempre estiveram muito presentes no meu cotidiano com minha família — conta Laura. — Meu protagonista é um garoto que participa de batalhas de beats (competição de DJs) e que encontra Cacique, um bicheiro que se tornou um famoso guru através das garrafadas que produz. Cacique se torna então seu garrafeiro particular.

    EVANDRO LUIZ DA CONCEIÇÃO

    78640524_SC - Rio de Janeiro RJ 31-08-2018 - Jovens roteiristas da periferia Evandro Luiz da Con.jpgJornalista, 42 anos, o carioca Evandro Luiz da Conceição faz mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ discutindo a descriminalização da maconha na obra de Marcelo D2 e de Bezerra da Silva. Influenciado pelo cinema caribenho e pelo cinema negro americano, ele é responsável por outro dos roteiros do Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual que tem a presença marcante de Lima Barreto — o outro é de Simone Mota.

    Sua história pensa um encontro hoje entre Lima Barreto e João do Rio, no Cemitério São João Batista — onde ambos estão enterrados.

    — Imaginei esses dois mulatos discutindo as relações que se dão nesta cidade, pensando hoje o passado do Rio, do início do século XX — diz Evandro.

    Ambos os personagens foram fundamentais para a cidade, mas marcados também pela condição de marginais.

    — Lima Barreto morreu depois de passar pelo hospício. E João do Rio era mulato e gay no Rio de 100 anos atrás.

    MAÍRA OLIVEIRA

    78640545_SC - Rio de Janeiro RJ 31-08-2018 - Jovens roteiristas da periferia Maira Oliveira no M.jpgFormada em Química e pesquisadora da UFRJ, a carioca Maíra Oliveira entrou no audiovisual por um caminho pouco ortodoxo:

    — Comecei a fazer graduação em Pedagogia na Uerj. Ali tomei contato com a narrativa como recurso pedagógico — explica.

    Para o laboratório da Flup, Maíra , de 31 anos, conta que tinha o desejo de falar de um “Rio descentralizado":

    — Sou de Tomás Coelho, estudei no Colégio Pedro II de São Cristóvão, estudo hoje no Maracanã, trabalho na Ilha do Fundão, circulo pela cidade... — lista Maíra, que busca em seu projeto apontar para outros passados da cidade. — No meu projeto, falo da região da Leopoldina, da Praia de Maria Angu, que tinha uma favela que foi removida no governo de Carlos Lacerda e que deu origem à Vila Kennedy. É necessário reviver nossa memória, criar memória, contar o Rio que ninguém conhece, dar voz a essas pessoas.


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    RIO — No corredor do Museu da Escravidão e Liberdade, na Gamboa, um grupo conversa sobre cinema. São negros, dois homens e três mulheres. Eles fazem cinema — nos primeiros passos da carreira. Vivem num país em que 84% dos cineastas brasileiros são homens brancos, 14%, mulheres brancas e 2%, homens negros, segundo pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa feita a partir das 20 maiores bilheterias nacionais entre 2002 e 2014.

    Evandro Luiz da Conceição, Laura Carvalho, Maíra Oliveira, Simone Mota e Victor Rodrigues carregam, portanto, a originalidade na essência de seus olhares, simplesmente por se contraporem, na pele, a esse panorama. Originalidade que se afirma na negritude, mas também na forma de convertê-la em histórias.

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    — Não estamos aqui para reproduzir o que se espera de nós. Não precisamos escrever sobre periferia, África, escravidão — afirma Simone, que ressalta que cinema negro não se limita a realismo. — No laboratório temos projetos de cinema fantástico, infantil...

    O laboratório a que Simone se refere, e do qual ela participa ao lado dos colegas à sua volta é o Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual, que integra a Flup Pensa — programa de oficinas de literatura da Flup (Festa Literária das Periferias). Com idades entre 24 e 44 anos, o grupo de cinco é um recorte da turma de 28 alunos, que por sua vez é um recorte dentro do universo do cinema feito por negros no Brasil. As falas deles, portanto, trazem questões que atravessam o audiovisual do país hoje — e como elas são vistas pela geração que está começando agora.

    — Estamos na busca dessa linguagem afrobrasileira, negra. E somos potências, somos vozes, temos o que dizer. A Flup reconhece isso, não há uma postura de “vamos ensinar a periferia a fazer cinema”. Ela não está fazendo caridade, sabe do valor desse material — diz Maíra. — Há uma diversidade enorme na produção.

    Quando fala em diversidade, Maíra toca num ponto central deste momento que realizadores negros atravessam no audiovisual brasileiro — ou seja, uma produção que inclui não só cinema, mas TV ou mesmo obras para a internet. Entre os projetos de roteiro que os cinco desenvolvem na Flup Pensa há história de terror e memorialismo carioca — sempre com a perspectiva negra, mas ampliando os significados disso.

    — O texto é o ponto de partida para a criação dessas subjetividades negras diferentes — defende Victor. — É a partir dele que vai se prezar uma equipe negr a no filme, por exemplo.

    ‘A QUESTÃO É POLÍTICA’

    Esta é a segunda turma do laboratório. Dos alunos de 2017, muitos foram absorvidos pelo mercado — como Mariana Jaspe, contratada como roteirista pela Rede Globo. Ainda nos primeiros passos no audiovisual, as oficinas da Flup Pensa já revelaram escritores como Jessé Andarilho, Rodrigo Santos e Geovani Martins.

    Maíra aproveita a fala de Victor para citar a filósofa americana Angela Davis, deixando claro que a pesquisa estética de sua geração — mesmo quando mira na massa — está fundamentada numa história de ativismo:

    — O negro se movendo socialmente move toda a sociedade, disse Angela Davis.

    Simone acrescenta, lembrando a candidatura de Conceição Evaristo à Academia Brasileira de Letras, que não há espaço que o negro não deva se mover para ocupar:

    — A porta está fechada, mas posso botar a mão e ir lá abrir.

    Maíra completa:

    — Ou o pé.

    Essa geração de realizadores é filha, em muitos sentidos, de movimentos da sociedade brasileira das últimas décadas — da estabilização monetária dos anos 1990 às políticas inclusivas da primeira década deste século, que levaram muitos jovens negros a serem os primeiros de sua família a entrarem na universidade. A crise política e econômica dos últimos anos pôs em xeque algumas dessas conquistas — ao mesmo tempo em que um pensamento conservador, que inclui tendências racistas, ganhou espaço no espaço público. É nesse contexto também que eles pensam o cinema negro contemporâneo:

    — A questão não é só narrativa, estética. É também política. E econômica, porque negros consomem audiovisual, então querem ser representados — nota Evandro Luiz.

    Laura vê que essa conquista de espaços começa fora da sala de cinema, refletindo a percepção nítida em sua geração de que a rua (articulada às redes) tem hoje lugar de protagonismo.

    — Todas os avanços de representatividade em novelas, filmes, veio da pressão dos movimentos sociais.


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    RIO — O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) pede que o youtuber Júlio Cocielo seja condenado a pagar mais de R$ 7 milhões por dano social coletivo devido ao post sobre a performance do jogador da seleção francesa Kylian Mbappé durante a Copa do Mundo. A mensagem, depois apagada, dizia: “Mbappé conseguiria fazer uns (sic) arrastão top na praia, heim?”. Uma ação civil pública foi ajuizada contra Cocielo por racismo nesta quarta-feira pelos promotores de Justiça de Direitos Humanos Eduardo Valério e Bruno Orsini Simonetti.

    LEIA MAIS: Post de Cocielo abre debate sobre regulação de vídeos na internet

    Posts ofensivos podem ser estratégia para ganhar atenção?

    Os promotores também pedem que seja decretada a quebra do sigilo bancário do réu, a fim de subsidiar a sua condenação na obrigação de pagar a quantia imposta (R$ 7.498.302).

    "Trata-se de um jovem jogador negro, francês de ascendência camaronesa, de compleição física robusta e que mostrou, nos jogos da seleção francesa na Copa da Rússia, impressionantes velocidade e explosão, daí advindo, em notória manifestação de racismo, a sua associação com os assaltantes (negros, na ótica do autor) que praticam crimes de roubo nas praias brasileiras, sobretudo fluminenses, sempre sob contínua e desabalada corrida", escreveram os promotores de Justiça.

    Ainda de acordo com a ação, o influenciador digital publicou comentários racistas nas redes sociais entre 2010 e 2018 de forma sistemática. Dessa forma, no entendimento dos promotores, ele utilizou o Twitter para violar direitos fundamentais, além de ofender e violar os direitos humanos, a Constituição Federal e Tratados Internacionais de Direitos Humanos.

    Após gerar revolta na web, Cocielo apagou mais de 50 mil tuítes antigos. Antes do comentário sobre o jogador francês, publicado no último 30 de junho, o youtuber contava com 81,6 mil posts no Twitter. No dia seguinte, havia 32,4 mil, incluindo um pedido de desculpas pelo comentário sobre o jogador. No dia 2 de julho, o número de publicações caiu novamente, dessa vez para 29,2 mil. Entre as postagens apagadas, uma de 2013 dizia: "gritei vai macaca pela janela e a vizinha negra bateu no portão de casa pra me dar bronca".

    No pedido de desculpas, o youtuber disse que fez "um comentário muito zoado, muito mal explicado. Ele afirma que, após a repercussão negativa, procurou explicações sobre o motivo de ter ofendido tantas pessoas. Segundo Cocielo, ao entender melhor como funcionam o “racismo institucional” e o “racismo velado”, ele compreendeu porque seu comentário foi interpretado como racista. Mas apesar disso, acabou perdendo patrocinadores e seguidores de seu canal no Youtube.

    "A gente só precisa prestar atenção nas estatísticas. Por exemplo, muito negro morre sendo confundido com bandido. (...) A gente só precisa se informar. No meu caso, a minha ignorância foi combatida com conhecimento”, afirmou Cocielo. "Sem querer, espalhei o ódio".


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    RIO — No corredor do Museu da Escravidão e Liberdade, na Gamboa, um grupo conversa sobre cinema. São negros, dois homens e três mulheres. Eles fazem cinema — nos primeiros passos da carreira. Vivem num país em que 84% dos cineastas brasileiros são homens brancos, 14%, mulheres brancas e 2%, homens negros, segundo pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa feita a partir das 20 maiores bilheterias nacionais entre 2002 e 2014.

    Evandro Luiz da Conceição, Laura Carvalho, Maíra Oliveira, Simone Mota e Victor Rodrigues carregam, portanto, a originalidade na essência de seus olhares, simplesmente por se contraporem, na pele, a esse panorama. Originalidade que se afirma na negritude, mas também na forma de convertê-la em histórias.

    LEIA MAIS: Conheça os participantes do Laboratório de Narrativas Negras da Flup

    — Não estamos aqui para reproduzir o que se espera de nós. Não precisamos escrever sobre periferia, África, escravidão — afirma Simone, que ressalta que cinema negro não se limita a realismo. — No laboratório temos projetos de cinema fantástico, infantil...

    O laboratório a que Simone se refere, e do qual ela participa ao lado dos colegas à sua volta é o Laboratório de Narrativas Negras para Audiovisual, que integra a Flup Pensa — programa de oficinas de literatura da Flup (Festa Literária das Periferias).

    Com idades entre 24 e 44 anos, o grupo de cinco é um recorte da turma de 28 alunos, que por sua vez é um recorte dentro do universo do cinema feito por negros no Brasil. As falas deles, portanto, trazem questões que atravessam o audiovisual do país hoje — e como elas são vistas pela geração que está começando agora.

    — Estamos na busca dessa linguagem afrobrasileira, negra. E somos potências, somos vozes, temos o que dizer. A Flup reconhece isso, não há uma postura de “vamos ensinar a periferia a fazer cinema”. Ela não está fazendo caridade, sabe do valor desse material — diz Maíra. — Há uma diversidade enorme na produção.

    Quando fala em diversidade, Maíra toca num ponto central deste momento que realizadores negros atravessam no audiovisual brasileiro — ou seja, uma produção que inclui não só cinema, mas TV ou mesmo obras para a internet. Entre os projetos de roteiro que os cinco desenvolvem na Flup Pensa há história de terror e memorialismo carioca — sempre com a perspectiva negra, mas ampliando os significados disso.

    — O texto é o ponto de partida para a criação dessas subjetividades negras diferentes — defende Victor. — É a partir dele que vai se prezar uma equipe negr a no filme, por exemplo.

    ‘A QUESTÃO É POLÍTICA’

    Esta é a segunda turma do laboratório. Dos alunos de 2017, muitos foram absorvidos pelo mercado — como Mariana Jaspe, contratada como roteirista pela Rede Globo. Ainda nos primeiros passos no audiovisual, as oficinas da Flup Pensa já revelaram escritores como Jessé Andarilho, Rodrigo Santos e Geovani Martins.

    LEIA TAMBÉM: Revelado pela Flup, Jessé Andarilho lança seu segundo romance

    Quem é o jovem Geovani Martins, a nova aposta da literatura nacional

    Maíra aproveita a fala de Victor para citar a filósofa americana Angela Davis, deixando claro que a pesquisa estética de sua geração — mesmo quando mira na massa — está fundamentada numa história de ativismo:

    — O negro se movendo socialmente move toda a sociedade, disse Angela Davis.

    Simone acrescenta, lembrando a candidatura de Conceição Evaristo à Academia Brasileira de Letras, que não há espaço que o negro não deva se mover para ocupar:

    — A porta está fechada, mas posso botar a mão e ir lá abrir.

    Maíra completa:

    — Ou o pé.

    Essa geração de realizadores é filha, em muitos sentidos, de movimentos da sociedade brasileira das últimas décadas — da estabilização monetária dos anos 1990 às políticas inclusivas da primeira década deste século, que levaram muitos jovens negros a serem os primeiros de sua família a entrarem na universidade. A crise política e econômica dos últimos anos pôs em xeque algumas dessas conquistas — ao mesmo tempo em que um pensamento conservador, que inclui tendências racistas, ganhou espaço no espaço público. É nesse contexto também que eles pensam o cinema negro contemporâneo:

    — A questão não é só narrativa, estética. É também política. E econômica, porque negros consomem audiovisual, então querem ser representados — nota Evandro Luiz.

    Laura vê que essa conquista de espaços começa fora da sala de cinema, refletindo a percepção nítida em sua geração de que a rua (articulada às redes) tem hoje lugar de protagonismo.

    — Todas os avanços de representatividade em novelas, filmes, veio da pressão dos movimentos sociais.


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    RIO — Toda obra de arte dialoga com seu tempo. No teatro, não importa o período que é retratado em cena, o tempo é sempre hoje. “Dona Ivone Lara – Um sorriso negro”, estreia da semana no Teatro Carlos Gomes, se passa na primeira e na segunda metades do século 20, mas reflete 2018. A personagem-título, uma das maiores joias da cultura brasileira, teve a vida marcada por conquistas caras às mulheres: trabalhou desde cedo, frequentava ambientes dominados por homens, foi pioneira ao compor numa escola de samba.

    Como a própria cantora sempre ressaltou, fez tudo de mansinho, pisando naquele chão devagarinho, pelas beiradas. Mas a Ivone Lara que vemos em cena é outra: de pulso firme, dominadora, incisiva, abrindo caminho com força – é sua versão século 21, reinterpretada sob a ótica de um mundo que tem o feminismo como uma de suas principais agendas. Isso não enfraquece o espetáculo; apenas afasta a personagem da doçura a que ficou associada e nos apresenta uma nova faceta. E quem disse que Dona Ivone Lara era uma só?

    Relembre grandes canções de Dona Ivone Lara

    O papel da protagonista é dividido entre três atrizes. Dandara Mariana (Ivone menina) e Heloisa Jorge (adulta) conseguem dar unidade à personagem no primeiro ato, com perfil combativo. No segundo ato, Fernanda Jacob (Ivone madura) fica num meio termo entre a força e a leveza, o que a afasta das composições anteriores.

    LEIA MAIS: Conheça as atrizes que vão interpretar Dona Ivone Lara no teatro

    Sua tarefa é a mais difícil, por encarnar a figura que está viva na memória do público, apenas tangenciando as formas de cantar e dançar tão particulares da artista. Das três, a que mais brilha é Heloisa Jorge, que também rouba a cena ao viver Elizeth Cardoso. O restante do elenco tem atuação uniforme, com destaque para Larissa Noel, no papel de Elza.

    Já no âmbito musical, o espetáculo perde potência, sem apresentar interpretações marcantes para o lindo repertório de Dona Ivone – com pouca segurança para apostar nos solos, a direção musical de Rildo Hora e Jarbas Bittencourt opta por apresentar parte das canções em coro. Há ainda excesso de faixas sem relação com a homenageada (“Palpite infeliz”, “Marinheiro só”, “Barracão”), incluindo o injustificável uso de “O amanhã” (clássico da União da Ilha) apenas para realçar uma passagem de tempo. Por outro lado, pérolas como “Alvorecer” ficaram de fora.

    O texto e a direção artística de Elísio Lopes Jr. e a direção geral de Jô Santana fazem leitura inteligente da trajetória de Ivone Lara, fortalecendo o núcleo familiar e alcançando bom resultado em cenas como a da fundação do Império Serrano. Por outro lado, há trechos longos demais, como a abertura no hospício e o casamento de Ivone, enquanto a parte final da carreira fica esquecida.

    O cenário tem que dar conta de muitos ambientes, que se revezam freneticamente, e Paula de Paoli faz escolha acertada ao usar estruturas de ferro, que não poluem o visual, ladeadas por pequenos elementos cênicos, como pássaros em gaiolas. Os figurinos de Carol Lobato são corretos e retratam bem a transição da protagonista dos bastidores para a frente dos palcos.

    77153556.jpgNo conjunto, “Dona Ivone Lara – Um sorriso negro” cumpre a função de contar parte importante da história do samba, depois de criar grande expectativa com a desistência de Fabiana Cozza de viver a protagonista (ela é o primeiro nome na lista de agradecimentos do programa).

    Gestada no caldeirão de discussões sociais em que estamos (finalmente) imersos, a peça não se furta a refletir seu contexto. A personagem usa frase atuais (“Lugar de mulher é onde ela quiser”) e, entre outros discursos, faz crítica contundente à Tia Nastácia do “Sítio do Picapau Amarelo” (“É a preta quem cozinha, mas quem ganha o crédito pelos bolinhos é a branca”).

    COLORISMO: O que esse termo diz sobre o atual debate racial do Brasil?

    Mas, como se fizesse um mea culpa pelo que é visto em cena nas duas horas anteriores, na última fala do espetáculo a protagonista diz textualmente que sempre agiu “no miudinho”. Usando força ou doçura (ou aliando os dois), o espetáculo mostra que a sambista pode ser atual em qualquer época. Já sabíamos que sua música era atemporal. “Dona Ivone Lara – Um sorriso negro” contribui para atualizar sua trajetória.

    Cotação: Bom

    SERVIÇO

    Quando: Sex e sáb, às 19h. Dom, às 17h. Até 25 de novembro. Onde: Teatro Castro Alves, Rua Pedro I, Praça Tiradentes , 4 Centro. Quanto: R$ 40 (balcão) e R$ 80 (plateia). Duração: 140 minutos. Classificação: 12 anos.


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    SEUL, Coreia do Sul — Dois dos maiores ídolos pop da Coreia do Sul, descobriram o doloroso custo de se apaixonar e declarar seu amor em público: na quinta-feira, HyunA e E'Dawn foram demitidos por sua gravadora.

    A desavença entre os artistas e a gravadora Cube Entertainment, de Seul, abriu uma rara janela para o protegido universo das estrelas do K-pop, que passam por um treinamento altamente profissional desde muito novos, e as empresas que os ajudam a construir fama mundial.

    Cláusulas proibindo relacionamentos antigamente eram comuns nos contratos das jovens estrelas do k-pop, de acordo com especialistas na indústria. Empresários acreditavam que romances assumidos publicamente poderiam minar o fascínio causado nas fãs. Com isso, ainda hoje o hábito de evitar relações românticas, ou pelo menos mantê-las em segredo, segue como uma regra tácita.

    Então HyunA, de 26 anos, uma das maiores estrelas femininas da indústria, e E’Dawn, 24, cantor numa boy band com um grupo menor, mas ainda assim substancial de fãs pelo mundo, tomaram a incomum decisão de anunciar publicamente seu namoro, contradizendo uma nota oficial da Cube.

    "Quando administramos a carreira de artistas, consideramos a confiança mútua uma prioridade", disse a gravadora em comunicado, explicando a demissão da dupla. "Nós decidimos que essa confiança foi quebrada, então estamos excluindo os dois da empresa."

    A notícia causou surpresa entre os fãs de k-pop na Coreia do Sul e em todo o mundo.

    "HyunA e E’Dawn foram expulsos pela Cube porque para a indústria ídolos não são pessoas. São produtos. Eles não podem ser eles mesmos ou amar quem eles amam", escreveu uma fã no Twitter.

    A Cube não respondeu a tentativas de contato. E a imprensa local noticiou que o site da gravadora saiu do ar com o grande número de acessos de fãs.

    HyunA ficou famosa após aparecer fazendo a dança do cavalo no cilpe "Gangnam Style”, de Psy, em 2012. E’Dawn, da boy band Pentagon, recentemente trabalhou com o trio de K-pop Triple H.

    Quando relatos do namoro entre os dois começaram a surgir na imprensa coreana no mês passado, a Cube rapidamente negou tudo. Mas HyunA e E’Dawn confirmaram a história sem o consentimento da empresa, revelando para a agências de notícias Yonhap que o namoro vinha desde maio de 2016.

    Apesar dos prejuízos que a revelação poderia causar em suas carreiras, os dois disseram que se não fossem honestos, e mantivessem a negação da gravadora, não conseguiriam "olhar os fãs nos olhos".

    Logo em seguida a relação dos dois com a Cube se deteriorou. A gravadora cancelou eventos promocionais e lançou o novo single da Pentagon, “Naughty Boy”, sem E’Dawn.

    "A indústria do K-pop ainda é baseada na lógica dos agentes serem donos dos ídolos e criarem uma personagem para eles", diz Kim Zakka, crítico musical na Coreia do Sul. “Como negócio gira em torno da fantasia do fã ter uma pseudo-relação com o ídolo, o fato do artista namorar na vida real quebra esse modelo."

    Como a personagem de HyunA foi criada em torno do convite para "fantasias sexuais" dos fãs, a revelação de que ela estava namorando um artista menos conhecido levou a Cube a concluir que o negócio não funcionava mais, diz Kim.

    Alguns fãs locais ficaram do lado da Cube, vilanizando HyunA e E’Dawn e classificando-os como egoístas que "traíram" a empresa e seus colegas. Mas, ao fim da quinta-feira, o drama já tinha tomado outro rumo.

    Um executivo da Cube, segundo a imprensa local, disse que o rompimento não era definitivo. O comentário veio após uma queda de 6,57% no valor das ações da empresa, atribuído à demissão dos ídolos.


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    RIO — As tortuosas experiências vividas pela escritora Maura Lopes Cançado (1929-1993) numa casa psiquiátrica, entre os anos 1959 e 1960, são a matéria-prima do solo “Diários do abismo”, que marca o retorno de Maria Padilha aos palcos. Sete anos após a atuar na comédia “A escola do escândalo” (2011), a atriz retorna para celebrar seus 40 anos de carreira e se desafiar no primeiro monólogo da sua trajetória. O espetáculo, que estreou quinta-feira no CCBB, toma como ponto de partida o livro “Hospício é Deus” (1965), escrito por Maura durante uma de suas muitas internações. Reeditado em 2015, o livro caiu nas mãos de Ney Latorraca, que presentou a amiga com o livro e, sem saber, com uma peça.

    — Ele me deu o livro e disse: “Olha essa mulher, que personagem!” — lembra atriz.

    Maria leu e confirmou a intuição de Ney. O solo estreia com direção de Sérgio Módena e dramaturgia de Pedro Brício, que intercala registros dos diários de Maura com trechos de poemas e de contos contidos no livro “O sofredor de ver” (1968). Interpretando as vivências de Maura — suas lembranças de infância e das suas internações —, a peça marca uma nova etapa da carreira de Maria Padilha, que iniciou no teatro ao lado de nomes como Miguel Falabella, Daniel Dantas e Bia Lessa, e assumiu desde cedo a dupla condição de atriz e produtora teatral.

    Primeiros passos — a atriz-realizadora.

    Comecei aos 15 anos, fazendo “Maroquinhas fru-fru” dirigida pelo Wolf Maya, com a Bia Lessa, a Rosane Goffman, mas em 1978 eu conheci o Miguel (Falabella) e tudo mudou. Foi num curso dado pelo Amir Haddad, Sérgio Britto, Hamilton Vaz Pereira e Eric Nielsen. Eu fazia desenho industrial, mas encontrei o Miguel e começamos a fazer planos. Cismamos que a Marília Pêra iria dirigir nosso primeiro projeto, “A menina e o vento”, e ela topou. Depois, éramos apaixonados por “O despertar da primavera” e fizemos. Então foi em 1978 que começa essa coisa da atriz e realizadora, e a partir daí eu e Miguel fizemos muita cisa, como “A tempestade”, no Parque Lage.

    Escolhas — Parceria, texto e atores.

    O teatro, antes da cena, só acontece se existe parceria com toda a equipe. Então a primeira coisa que penso são as pessoas do projeto. Depois, claro, contracenar com grandes atores em um bom tetxo. Já deixei de fazer grandes papeis em peças que não achava interessantes. Quando decidi fazer “O mercador de Veneza”, por exemplo, o Abujamra me disse que era uma escolha difícil, mas para mim era uma peça que falava sobre intolerância, algo que ainda é um tema fundamnetal. Então não esoclho só um perosnagem, mas aquilo que se liga ao que sinto sobre um momento. É preciso se perguntar o que a peça tem a dizer sobre hoje, sobre o mundo em que estamos vivendo.

    Retorno — De Tchekhov a Maura.

    O Ney me deu esse livro e falou: “Olha essa mulher, olha que personagem!”. Então comecei a ler e fiquei obcecada, pesquisando sobre a Maura. Depois, eu e o Sérgio (Módena) começamos a pensar em criar uma peça a partir de Tchekohv. Eu já havia produzido e feito “As três irmãs”, e para mim Tchekhov é sempre atual. Ele sempre fala de um mundo prestes a passar por uma revolução, de um mundo que precisa ser transformado, e assim estabelece uma forte relação com a questão ecológica, do meio ambiente em que vivemos. Mas no meio do caminho dei o livro da Maura para o Sérgio e ele voltou impactado. Perguntei se achava que daria teatro, e ele disse que não só daria, como era urgente.

    A peça — A urgência dos diários.

    Não falo como uma intelectual, mas como uma atriz. Sinto uma loucura muito grande à nossa volta, não só no Brasil, mas no mundo. Já senti isso em outras épocas, mas não com tanta contundência quanto hoje. Maura não é uma louca que escreve, mas sim uma escritora que é louca. Então ela tem uma capacidade enorme de organizar a loucura, de escrever sobre a loucura e sobre o mundo em que vivemos, mas sem perder a esperança. Ela dizia que a humanidade toda é responsável pela doença mental de cada indivíduo, e que só a humanidade como um todo pode evitar a loucura de cada um. É necessário amor e amor, era o que ela dizia. Então o que ela diz é que a a vida do indivídeuo depende de uma saúde global.

    Internações — Relato vivo em cena.

    Maura se casou aos 15, se separou aos 16, e desde entou foi altamente discriminada, tratada como puta. E se internou pela primeira vez aos 18 anos, em Belo Horizoente. Depois foram muitas internações. No livro é a terceira internação dela no Rio. Ela dizia que não aguentava o mundo do lado de fora. Mas no livro também descreve o horror do lado de dentro. Não só descreve os eletrochoques, os maus-tratos, um médico que ela tinha horror, mas também coloca sua imaginação para funcionar, se apaixona por um médico, lembra das amigas loucas, reflete sobre como os loucos deviam ser tratados. É como se ela tentasse contar tudo o que está vivendo ali, e eu me coloco como se estivesse vivendo ali, agora, não é passado.

    Identificação — Loucura, lucidez, empatia.

    Acho que nós entendemos muito bem os loucos. Mas além disso, acho que todos nós sentimos que somos mal compreendidos, que não nos encaixamos nos padrões da sociedade, e ela fala com muita lucidez sobre esse sentimento de inadequação, o que cria uma forte identificação. Enquanto eu lia pensava “Se ela é louca eu também sou”. Porque penso igual a ela em quase tudo.

    Caos e criação — Fazer teatro no Rio.

    Tudo mudou na produção cultural no país, e sobretudo no Rio. Piorou muito, regredimos. Em 1999, quando fiz “As três irmãs”, ainda era possível ter um elenco, alguma receita da bilheteria. Hoje não. Em São Paulo você ainda vê peças com elenco, com patrocínio, mas no Rio é quase impossível. No momento do país, enxugar é necessário, claro. Mas o problema é que o necessário está faltando. Estamos abaixo da linha do possível, numa zona muito indigente, com atores e diretores com projetos incríveis sem conseguir qualquer apoio. O Brasil está mal, mas o Rio pior. Foi muito difícil realizar esse projeto, que é um solo. Mas assumi como uma missão, minha, pros meus 40 anos, e pra Maura, porque o país precisa conhecê-la. Realizamos essa peça graças ao apoio do CCBB. Uma verba pequena, mas fundamental. Porém como ainda iremos receber, desde o começo do projeto toda equipe está trabalhando na parceria. O teatro só acontece se há parceria.


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    RIO - Na entrada da exposição, se anuncia em letras enormes, pintadas em vermelho e com o descuido que caracteriza urgência: “Amanhã manifestação”. A obra de Gustavo Speridião é uma das mais de 60 que integram a mostra “Arte democracia utopia — Quem não luta tá morto”, que será aberta neste sábado, às 16h, no MAR. Em sua economia de elementos, a pintura sintetiza em grande parte o conceito da exposição — apontando o futuro (“amanhã”) e a ação que se move em sua direção (“manifestação”). Utopia e luta, eixos da curadoria de Moacir dos Anjos.

    — Procurei reunir alguns trabalhos de chamamento, que evocam a energia desse movimento das ruas hoje — explica Moacir. — A obra de Gustavo está nesse grupo, lembrando ao visitante que amanhã sempre haverá um motivo pra se manifestar, para imaginar um outro mundo.

    Moacir conta que também procurou representar a diversidade de pautas levantadas na sociedade brasileira hoje:

    — O racismo aparece no trabalho do coletivo Frente 3 de Fevereiro e no de Paulo Nazareth. A questão indígena está na obra de Maria Thereza Alves. A discussão de gênero está presente em obras como “Profecias”, de Randolpho Lamonier.

    DIÁLOGO COM OS ANOS 1960

    A maior parte das obras — cerca de 80%, segundo o curador — foi produzida a partir de 2015. Ou seja, um painel bastante representativo do calor político contemporâneo. As outras obras, mais antigas, referem-se a outro período nebuloso para a democracia brasileira, no fim dos anos 1960 e início dos 1970 — na vigência da ditadura militar. Moacir vê diálogo entre o papel da utopia e da luta nesses dois momentos, mas acredita que em termos artísticos há uma diferença marcante:

    — Hoje, vemos a primeira geração de artistas brasileiros na qual a política está disputando hegemonia na representação do país. Porque a política sempre foi presente na arte brasileira, mas de forma periférica. Nesta geração de hoje, a desigualdade, as violências que muitas vezes ficaram recalcadas vieram à tona de maneira muito forte. Esses artistas parecem estar respondendo a este nosso momento político.

    A reação dos conservadores a exposições como “Queermuseu” e a obras como “La bête”, de Wagner Schwartz, seria também reflexo do mesmo movimento:

    — Toda essa violência, repressão, é um sintoma da percepção de que a arte é um espaço de discussão politica. Conturbado, por conta dessa quebra de institucionalidade que foi o impeachment, que abriu uma caixa de Pandora. Tudo parece legítimo pra manter o poder.

    O artista Matheus Rocha Pitta, presente na exposição com a obra “Toque de recolher”, reforça as palavras de Moacir:

    — Nos últimos anos, é incontornável encarar a questão política. A grande questão é como encarar. Walter Benjamin dizia que o fascismo estetiza a política e que pra lutar contra isso temos que inverter a ação e politizar a arte.


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    RIO — Muita gente acha que ela sumiu, só que Vera Loyola continua circulando com desenvoltura. E mantém um séquito fiel. Vinte cinco anos após surgir como rainha da Nova Sociedade Emergente do Rio, é vista com frequência em eventos de moda, chazinhos, aniversários, jantares e reuniões para rezar o terço, como a que organizou recentemente, contra a corrupção e com convidadas intimadas a usar verde-e-amarelo.

    —O que posso fazer se ainda sou formadora de opinião? — indaga. —A vida sem brilho e sem cor não é comigo.

    Hoje, vive de renda. Diz que não sente saudade de nada, mas admite que os banquetes mirabolantes, regados a Veuve Clicquot e adornados com mármore carrara, marca registrada dos aspirantes ao high society carioca, foram substituídos pelo esquema das vaquinhas.

    — Não tem mais essa história de sociedade disso ou daquilo. As pessoas não aparecem, não dão mais festas e têm medo de sair — lamenta.

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    RIO - Um desavisado que ouvir de soslaio uma conversa de Edu Conte pode pensar, com razão, estar diante de um terapeuta motivacional. O discurso sobre a pressão do mundo corporativo e a importância do autoconhecimento estão lá. O advogado de 40 anos, pode até parecer, mas não é um coach e sim um astrólogo. Ele também é a cara da astrologia 3.0, um marco na área com consequências quase ou tão significativas quanto a separação dos conceitos com a astronomia, no século XVII, e a explosão da New Age, nos anos 1970.

    A astrologia quer ganhar agora status de ferramenta de autoconhecimento, com a análise de mapas, revoluções solares e trânsitos de planetas mais próxima dos consultores de carreira do que de um hierofante ou mago.

    — É uma nova tecnologia, que veio para mudar tudo — diz o astrólogo .

    Rachel Juraski.jpgEm pouco mais de dois anos na área, ele já tem em sua carteira de clientes a apresentadora Fernanda Gentil e o life coach Ricardo Barbato. O Instagram é sua ferramenta preferida. Por lá, dá dicas do dia e do mês via stories numa linguagem informal.

    — Estou bombando — diz Edu, sem falsa modéstia. Acho que as pessoas precisam sentir que algo dirige suas vidas, que elas não estão sozinhas num universo indecifrável que não lhes dá a menor atenção

    Ele tem agenda lotada pelo menos para os próximos dois meses, com consultas presenciais e por skype, a partir de R$ 300. E, em breve, vai lançar um braço corporativo, para avaliar por meio de mapas astrais onde cada funcionário pode se encaixar melhor na empresa em que trabalha.

    A astrologia caiu como uma luva para as gerações do Milênio e a Z, interessadas em construir uma marca pessoal como parte integrante da própria personalidade. E há, claro, o Peoplestrology, um projeto de pesquisadores brasileiros de tendências sobre a presença da astrologia na vida das pessoas. Desde janeiro, eles investigam a opinião e a relação dos brasileiros com a astrologia e os signos zodiacais. Uma das primeiras conclusões é a que nova astrologia passa longe da ideia de uma religião que padroniza seus seguidores. “Ela é pessoal e específica, é sobre você”, explica o primeiro relatório do grupo.

    Houve um tempo em que astrólogos se empenhavam em defender a complexidade da interpretação dos astros. Pois hoje isso não tem mais tanta importância. A astrologia 3.0 não tem a menor intenção de ser a detentora da verdade. “A oposição entre ‘astrologia é fake’ e ‘astrologia é real’ não faz mais sentido. Em uma cultura de fatos alternativos, a verdade se tornou um conceito relativo”, segue o documento.

    MERCÚRIO RETRÓGRADO?

    Mas vale colocar a culpa de tudo que está dando errado no mercúrio retrógrado? E do namoro que desandou na Vênus em Gêmeos do parceiro, como em memes que pululam nas redes sociais? Vale, ué. É tudo uma questão de interpretação.

    Em seu novo livro, “A luz e a sombra dos 12 signos”, a astróloga do GLOBO Claudia Lisboa apresenta a astrologia de maneira direta, “sem enrolações ou hipérboles desnecessárias” e “mais pop”.

    — A ideia é falar com todos os públicos. Apresento personagens e falo também da minha própria vida para estabelecer uma conexão direta com o leitor — diz Claudia, que lança a obra segunda-feira, 19h, na Livraria Travessa de Ipanema.

    A publicitária paulistana Rachel Juraski, 35, acompanha fielmente as previsões de uma das principais expoentes da astrologia 3.0, a norte-americana Susan Miller, que contabiliza pelo menos 15 milhões de acessos mensais em seu site, o Astrology Zone, no qual dá previsões para cada signo. Em 2011, com o casamento indo mal e uma depressão se avizinhando, Rachel fez um mapa astral por sugestão de uma amiga. Gostou do que viu. E, em 2012, resolveu fazer mais um.

    —Foi surpreendente me ver ali, sendo descrita por uma completa estranha, só olhando para um gráfico em forma de círculo num tapete — diz Rachel, uma pisciana com ascendente em Câncer e Lua em Sagitário que gostou tanto do negócio que hoje é uma “astróloga amadora”.

    ACREDITAR DUVIDANDO

    E se essa ferramenta está ao alcance de um clique, melhor ainda. O Personare, um dos mais famosos sites de astrologia do país, com 3 milhões de acessos/mês, reposicionou a marca para deixar de ser “apenas” astrologia e sim um “portal de autoconhecimento”.

    Para Márcia Fervienza, psicóloga e astróloga colaboradora do Personare, a internet ajudou a popularizar a astrologia de forma ainda mais abrangente.

    — As previsões mais fast food consideravam somente o signo solar. Assim, todos os geminianos do mundo recebiam uma mesma previsão, que, no entanto, só se concretizavam para alguns — acredita Márcia.

    Tanta generalização permitiu que, antes da internet, leigos pudessem fazer essas previsões. Tanto que, nos anos 1960, leitores do jornal gaúcho “Zero Hora” acompanhavam um horóscopo escrito pelo hoje colunista do GLOBO Luis Fernando Verissimo. Iniciante no jornal, o futuro cronista best seller foi escalado para criar as previsões.

    — Como tinha pouco tempo para inventar textos para cada signo, comecei a só mudá-los de lugar. O que um dia valia para Sagitário, no outro virava Gêmeos. Tinha a ilusão de que as pessoas só procuravam o seu signo e ignoravam o resto. Mas todos lêem o horóscopo inteiro todos os dias e logo descobriram minha falsa esperteza — conta.

    Verissimo não é exatamente fiel seguidor da astrologia:

    — Sou libriano e sempre achei um absurdo a ideia de que a posição dos astros no dia em que nascemos vá influenciar nossas vidas. Mas confesso que, todos os dias, lia o que eu mesmo tinha previsto para os librianos.

    Mas o escritor está com os astros alinhados com os pesquisadores de tendências quando avalia o porquê de cada vez mais gente estar novamente se voltando para o céu.

    — Acho que as pessoas precisam sentir que algo dirige suas vidas, que elas não estão sozinhas num universo indecifrável que não lhes dá a menor atenção.


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    RIO - Reportagem do jornal "Independent" denunciou este sábado que os valores de obras do artista plástico inglês Damien Hirst teriam despencado desde que ele quebrou o recorde mundial vendas em um leilão aberto, em 2008. Então, Hirst arrecadou US$ 125 milhões em dois dias de lances, algo incrível numa época em que os mercados financeiros entravam em colapso em meio ao escândalo das hipotecas de alto risco, as subprime.

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    Segundo o jornal, especialistas do site Artnet descobriram que 17 das 19 obras do polêmico Hirst que foram vendidas no leilão acumularam, dez anos depois, uma perda total de cerca de 2,2 milhões de libras. Uma pintura de uma caveira intitulada "Beautiful Mider" foi vendida por 670 mil libras em 2008 e revendida no ano passado por 449 mil libras. A perda teria sido ainda pior para o investidor devido ao prêmio do comprador, as taxas do vendedor e os custos de armazenamento.

    Ouvido pelo "Independent", o economista especializado em mercado de arte arte Don Thompson disse que é improvável que os colecionadores que compraram trabalhos de Damien Hirst como investimento recuperem o dinheiro que gastaram: "O valor de seu trabalho tradicional provavelmente chegou ao pico com o leilão."

    As obras de arte são frequentemente compradas por colecionadores como investimentos de longo prazo, com a esperança de que elas aumentem de valor ao longo do tempo à medida que a reputação do artista cresce.

    O "Independent" lembrou que em 2013 o especialista em arte Philip Hook alertara os colecionadores a "bolha" estimulada pela máquina de relações públicas de Hirst eventualmente estouraria. "Um artista que é simplesmente muito bom em lidar com o mercado e é bom em se vender, ele é o que mais está em perigo de sofrer quando morre", disse.


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