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    São quatro horas de uma abafada tarde paulistana, logo antes de chover, quando Reinaldo Moraes chega ao Pilar Restaurante e Lanchonete, um pé-sujo encravado entre as grifes dos Jardins. O escritor explica sua escolha de endereço (“morei anos aqui do lado, até semana passada”) e se dirige à mesa mais distante do trânsito da Alameda Campinas — sua favorita.

    Nesta calçada, ele conta, começou a surgir “Pornopopeia”, 500 páginas de “minha egotrip de luxo” que renderam sucesso de crítica e público em 2009. Considerado um clássico contemporâneo, era seu último livro de ficção até o recém-lançado “Maior que o mundo” — o primeiro de uma trilogia em que cada obra tem “pelo menos” 450 páginas. “Será que alguém vai ler?”, Moraes pergunta.

    O protagonista de “Maior que o mundo”, Kabeto, é um escritor com bloqueio criativo que perambula por São Paulo registrando num gravador impressões imediatas, memórias sexuais e aventuras químicas. Moraes tem estilo parecido: começa falando do novo romance e vai abrindo abas sobre mercado editorial, política brasileira, vida em família, envelhecer. Aos 68 anos, ele diz: “Tem novidades que meu personagem não consegue entender. Assim como eu.”

    A seguir, os principais trechos do papo regado a cerveja, cachaça e amendoim.

    Os nove anos sem lançar ficção foram planejados?

    Não! Eu queria lançar algo logo, estava batucando o tempo inteiro. Quando passou o auê do “Pornopopeia”, já comecei outro romance. Estava com 700 páginas, era a história de um bicheiro que mata um monte de gente. Aí ele morre, vai pro céu, mas é um céu esquisitíssimo, ele não sabe porque está ali, rola uma metafísica... Mas não conheço nenhum bicheiro. Era só uma palavra, “bicheiro”, sem substância. Resolvi pesquisar. Estava enrolando, repensando tudo, quando, em 2012, apareceu um convite para escrever um filme.

    Como surgiu essa proposta?

    Um jovem cineasta, Roberto Marques, queria filmar “Pornopopeia”. Como eu já tinha vendido os direitos, ele encomendou o roteiro de uma espécie de “Pornopopeia 2”. Ele disse: “quero que tenha Rua Augusta, putas e drogas!” Eu disse: “Deixa comigo!” Entreguei o roteiro de “Maior que o mundo” (já filmado, deve estrear em 2019) e, a partir dele, comecei a fazer um livro. Isso faz cinco anos. Quando passou de mil páginas senti que era melhor dividir em uma trilogia. (Pausa.) Será que alguém vai ler?

    Diga você: por que só fazer livros de 400, 500 páginas?

    Primeiro, porque eu sou um idiota. Dizem que o romance foi pras bicas, todo mundo só quer ver seriado, e eu sigo apostando nesse formato. Enfim. Segundo, porque minha mulher [a editora Marta Garcia] segura a onda quando eu estou duro, o que acontece amiudadamente. Terceiro, porque eu estou com quase 70 anos. Vou fazer o que para ganhar dinheiro? Vou fazer o que eu sei: essa merda, literatura. Mesmo que não haja clima.

    Como você vê essa onda conservadora?

    Laura, minha filha de 18 anos, [as outras são Dora Garcia Moraes, 21, Ana Kehl de Moraes, 31] viu o resultado das eleições na televisão e chorava: “Vou passar quatro anos com esse machista no poder”. Daí eu disse: “Bem vinda ao clube, baby”. Em 1964 eu tinha 14 anos, em 1985 eu tinha 35. Vivi minha juventude toda embaixo de milico. Com amigo preso, torturado, fui pego também. Aí fui pra Paris.

    Como foi essa experiência?

    Fiquei lá de 1979 a 1980. Encontrei Julio Cortázar, eu com o endereço errado, meio bêbado, e ele aparece na minha frente. Foram 20 minutos de fã. (Risos.) Em Paris escrevi meu primeiro livro, “Tanto faz” (1981), que só saiu porque a censura já tinha afrouxado.

    Em “Tanto faz” já surgia um narrador boêmio, andarilho, que mistura referências intelectuais com baixaria...

    Eu sempre digo que todos os protagonistas são eu. O pessoal me pergunta: “Isso é da sua experiência?” Lógico que é. Eu vivi tudo isso, ou acordado ou dormindo. Ou devaneando. Mas, agora, esse narrador mudou. Tem novidades que meu personagem não consegue entender. Assim como eu. Em “Maior que o mundo” o Kabeto está sempre em choque. Ele diz: “Eu entendo homossexual, mas bissexual é muito pra mim.” Então os amigos jovens tiram sarro dele o tempo todo, dizem que é um dinossauro ético, dinossauro moral. Ele se dá conta que é um velho babaca, ultrapassado, antiquado.

    Reflexões que vêm de trocas com gente mais jovem, imagino. Como suas filhas, por exemplo, veem a sua obra?

    Normalmente elas entendem que há diferença entre as opiniões absurdas do narrador do livro e o autor, que no caso sou eu. Mas neste último já houve mais questionamentos, trechos do fluxo de consciência do Kabeto que para elas soaram machistas ou misóginos.

    E qual a sua reação?

    É a opinião delas, que eu respeito. Mas eu não vou me autocensurar. Sabe, eu me debatia com essa questão bem no começo, queria escrever umas coisas e ficava pensando no que os outros, no que meus pais, ainda vivos, iam achar. Mas não adianta. Se você for escrever com sinceridade, tem que cortar os laços. Na hora de escrever, escritor não pode ter pai, mãe, filha, mulher, papagaio. Escritor não tem família. Depois ele se entende com mundo.

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    Crítica: Resgate da fórmula de ‘Pornopopeia’ em uma narrativa longa demais

    Juliana Cunha

    “Maior que o mundo” é narrado em primeira pessoa por um homem de meia-idade que quer escrever um romance, que cita Bukowski, fala de seus casos com mulheres das quais nem lembra o nome, de drogas, de literatura, faz meia dúzia de referências eruditas, passeia pelo Baixo Augusta, frequenta sua fauna. Você abre a porta de um quarto assim e o que sobe é um cheirão de naftalina. Para piorar, o romance lembra demais “Pornopopeia” (2009), que, por sua vez, lembra demais “Tanto faz” (1981), ambos também de Reinaldo Moraes.

    Você poderia cortar lotes de dez páginas de “Maior que o mundo” e acoplar em qualquer um desses dois livros anteriores sem que ninguém notasse. Como tentativa de atualização dos mesmos temas, entra um ou outro assunto mais atual, de tecnologia aos protestos de 2013, mas parece que nada disso realmente modifica o narrador, ou a narrativa.

    O problema da literatura, no entanto, é o modo como alguns autores pegam materiais que não são grande coisa, dão um tratamento que também não parece nenhuma lapidação sofisticada e o resultado que emerge daí surpreende. Neste caso, o produto dessa alquimia estabanada não é tão interessante quanto o desses dois predecessores que mencionei, mas ainda é mágico ver como um discurso cansado, cheio de lugares-comuns que te fazem revirar os olhos em tédio e desespero, consegue se articular de uma forma envolvente. No fim, Reinaldo Moraes tem os mesmos defeitos de um Marcelo Mirisola, para citar um exemplo que provavelmente ofende a ambos, mas aqui simplesmente funciona.

    O romance é narrado por esse homem (Cássio Adalberto, também conhecido como Kabeto) que você conhece inteiro logo nas primeiras linhas (é um tipo publicitário velhão do rock) que passeia por São Paulo falando sozinho em um gravadorzinho à pilha enquanto busca a frase perfeita para iniciar seu novo romance, que consiste nessa gravação infinita que ora lemos. O homem tem dúvidas formais do tipo “que voz narrativa devo usar em meu romance”, coisa que ele logo resolve por intuitivamente usar a primeira pessoa (faz mais de cem anos que estamos “intuitivamente” fazendo o mesmo). O homem é um pouco avesso às novas tecnologias, daí o radinho, e tem sonhos irreais e mais do que levemente misóginos envolvendo mulheres exóticas, interessantes e que o admiram. Como Reinaldo Moraes consegue transformar um material assim em algo que seja possível de se ler com algum prazer por mais de quatrocentas páginas em um longínquo dezembro de 2018 é a pergunta que não me sinto habilitada a responder neste momento.

    Mas agora vem a parte que desanima: essas quatrocentas páginas são apenas o começo de uma trilogia que soma umas mil e duzentas e cujo segundo volume deve ser lançado no ano que vem. E essa mesma história vai gerar um filme, que por sinal foi pensado antes do livro. Por mais que eu seja uma entusiasta de “Pornopopeia” e que tenha me divertido com a leitura de “Maior que o mundo”, fico me perguntando se preciso de mais oitocentas páginas de egotrip confessional estilo Karl Ove beatnik a essa altura do campeonato. E nem preciso me perguntar se algo assim escrito por uma mulher sequer seria publicado por uma editora séria, ou resenhado como literatura séria.

    * Juliana Cunha é jornalista e doutoranda do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

    Cotação: BOM


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    RIO - No carnaval, o carioca André Heller-Lopes estará a muitos quilômetros do Rio, em uma missão no mínimo curiosa: ele estreia na Polônia uma montagem da ópera “Don Giovanni” na qual o universo de Mozart será ressignificado no ambiente recriado da Biblioteca de Mafra (Portugal) dos séculos XVII e XVIII, em um encontro com a obra de Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), sergipano esquizofrênico-paranoico, que passou anos internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, e que, lá, revolucionou as artes plásticas com suas obras feitas a partir de lixo e sucata.

    — A iconografia latino-americana é muito influenciada pela europeia, que foi deglutida e antropofagizada por aqui. Agora eu quero cuspir isso de volta — promete o diretor de 47 anos, raro brasileiro a fazer carreira internacional na ópera (ainda mais como diretor).

    Um confesso “liricômano”, que acumula partituras, CDs, DVDs e adereços de montagens em seu apartamento, Heller cresceu no Leblon sem ter a ópera em seu cotidiano — descobriu o canto lírico na infância, nos desenhos de Tom & Jerry, e só aos 15 anos conseguiu assistir ao seu primeiro espetáculo do gênero, uma “Carmen”. Achava que ia ser diplomata e foi cursar Ciências Sociais. Dois anos depois, largou tudo e foi estudar canto (na Escola de Música da UFRJ, onde dá aulas desde 1995) e teatro na CAL. Da época em que mirava o Itamaraty, sobrou a fluência no inglês, francês, italiano, espanhol e alemão (hoje, fala também russo e tcheco, aprendido ao montar óperas de Leoš Janácek).

    Vinte e cinco anos atrás, André Heller-Lopes era um dos solistas da célebre montagem que o barítono Nelson Portela fez, na Praça da Apoteose, de “Turandot”, de Giacomo Puccini (curiosamente, a ópera que ele mesmo viria a dirigir em 2018, no Municipal de São Paulo). Ali, o jovem começava a vislumbrar um outro futuro.

    — Eu não achava que era um bom cantor. E, num determinado momento, senti que era muito mais útil produzindo e sendo diretor. O problema é que não se abriam oportunidades. Se o mercado da MPB já é pequeno, imagina o da ópera e da música clássica — conta ele, que em 2001 foi o primeiro latino-americano aceito em um programa de jovens talentos em São Francisco, depois foi assistente do diretor inglês John Colpey no Metropolitan de Nova York e acabou em outro programa, na Royal Opera House de Londres.

    Habilidades únicas

    O fato de ser brasileiro fazia muita diferença para esse diretor iniciante que, na volta para o Rio, em 2003, assumiu a coordenadoria de ópera da Prefeitura do Rio (cargo que ocupou até 2008).

    — A gente tem um savoir-faire, a gente sabe como fazer um milagre com fita crepe — brinca Heller, que desenvolveu habilidades únicas em administrar os caprichos das divas e, quando a situação exigiu, teve até o sangue frio para matar um inseto que ameaçava devorar a perna da soprano Gabriella Pace segundos antes de ela entrar em cena em “Sonhos de uma noite de verão” no Parque Lage, em 2013.

    Chamado de tradicional na Europa e de moderno no Brasil, Heller-Lopes diz se importar cada vez menos com os limites do que se deve ou não fazer na ópera. Mas acredita que responsabilidade e conhecimento são fundamentais aos diretores.

    — Você tem que conhecer todos os lados da caixa antes de pensar fora dela — diz o diretor que, em 2013, foi escalado para dirigir a montagem brasileira de “Ça ira”, ópera do ex-Pink Floyd Roger Waters. — Sugeri incluir as obras do Bispo do Rosário e deu muito certo.

    O 2019 de Heller segue com um “Aída” na Alemanha e um “Fausto” no Chile. Mas ele tem muitos planos no Brasil, entre os quais a de terminar uma trilogia de adaptações de obras de Nelson Rodrigues, que começou com “Anjo negro” e que ele pretende concluir com um “Senhora dos afogados” no Porto do Rio e “Vestido de noiva” na Candelária ou no Outeiro da Glória.

    — A ópera pode ser muito mais barata do que parece, ela se faz de grandes ideias, não de grandes cenários — diz ele, que passou alguns meses em 2017 como diretor artístico do Teatro Municipal. — Foi um ano superdifícil, em que eu aprendi muito. A gente conseguiu fazer muita coisa, sem salários, trabalhando junto com os corpos artísticos. Até hoje não recebi um tostão, nem pelo que eu dirigi. Mas penso sempre em trabalhar pelo Rio de Janeiro.


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    RIO — Passando o fim de ano em Búzios, o pianista Miguel Proença, de 79 anos, foi surpreendido com a nota publicada na coluna de Ancelmo Gois nesta segunda-feira que adiantava sua nomeação a novo presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Diretor artístico da Sala Cecília Meireles (SCM) desde março de 2017, Proença mostrou entusiasmo com a nova missão e afirmou que os objetivos iniciais são interiorizar o fomento, levando investimentos a áreas pouco abastecidas, e desburocratizar os editais.

    Como o senhor recebeu o convite para a Funarte?

    O trabalho que fiz na Sala repercutiu de uma maneira muito forte não só no Rio, mas em todo o Brasil. O ministro (da Cidadania, a ser empossado nesta terça-feira) Osmar Terra admira muito meu trabalho como pianista. Sempre que fazia viagens internacionais, costumava levar caixas da minha coletânea de piano brasileiro porque dizia ser o melhor presente que o Brasil podia oferecer. E o Secretário Nacional de Cultura, José Henrique Medeiros Pires, é um grande amigo de longa data. Acredito que houve um consenso de opiniões positivas a meu respeito. Links Funarte

    Muito se fala sobre como o fim do Ministério da Cultura enquanto pasta afetaria órgãos como a Funarte. Como foram as conversas iniciais?

    Até o momento, eu basicamente só disse “sim” ao convite e tive uma conversa com o secretário Henrique. Ele disse ter plena confiança na minha administração e que vamos trabalhar por editais. Vamos, então, procurar interiorizar mais o fomento. Sou interiorano, vim de Quaraí, uma pequena cidade no Sul. Quero valorizar o interior. Mas eu tenho um certo receio de editais, existe injustiças neles. Pessoas que não entendem do assunto ou entendem mais de outros aspectos, como os legais, estão no processo, e às vezes a arte fica para o último quesito. Eu conheço a parte artística. Vou tentar diminuir também as exigências.

    Como?

    Muitos artistas maravilhosos não sabem sequer preencher editais. Viajo muito pelo interior para me apresentar e ouço as queixas. As injustiças começam aí. Quero facilitar de toda maneira possível. Não sei até onde vai o poder da Funarte nesse sentido, confesso que não conheço todos os programas. Mas vou me cercar de gente que saiba fazer. Mapear essas demandas em todo o país, ouvir as reclamações e buscar meios de diminuí-las. Conheço muita gente. A ideia é montar uma seleção para marcar gols.

    O senhor conversou com o atual presidente da Funarte, Stepan Nercessian?

    Ainda não, mas prezo pela ética e quero fazer meu melhor, então pretendo procurá-lo assim que chegar ao Rio. Admiro-o muito.

    Qual é a sua opinião sobre a Lei Rouanet?

    Acho que o dinheiro é mal distribuído. Eu senti muito isso na pele. Chegava com projetos maravilhosos, de comprovado sucesso, e tinha outras pessoas que eram recomendadas por não sei quem e acabavam ficando com o dinheiro. Ouço muitas reclamações nesse sentido.

    Como o senhor avalia seu trabalho à frente da Sala? Já sabe quem vai sucedê-lo?

    Ainda não. O trabalho foi maravilhoso. Fiz muito mais do que eu planejava. Eu não fiquei quieto lá. Tinha pouca gente para trabalhar, mas eram parceiros incríveis. As pessoas falavam comigo com emoção. Fizemos uma Sala viva, com grandes espetáculos, nomes consagrados e revelações. Quero conversar com a Sala para fazer uma Série Funarte lá, conforme as condições que me oferecerem para a ocupação. Queria um dia da semana e um domingo por mês, para espetáculos voltados à juventude.


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    Bruce Springsteen é um sujeito intenso: seus shows não raro ultrapassam as quatro horas, as passagens de som são intermináveis — e ele costuma passear por todos os cantos do estádio onde vai se apresentar enquanto sua banda testa o equipamento, para ter certeza de que os milhares de fãs vão ouvir tudo direitinho. As costumeiras multidões, aliás, são um dos fatores que motivaram a temporada do Chefão na Broadway, que começou em outubro de 2017, inicialmente prevista para oito semanas, mas acabou sendo esticada até 15 dias atrás — a Netflix disponibilizou o especial para streaming poucas horas depois da última performance, em 15 de dezembro, no Walter Kerr Theatre, na Rua 48, em Nova York.

    Bruce disse que pensou em uma temporada de voz, violão e sessão de análise intimista, para uma meia dúzia de pessoas, a fim dar um tempo dos “80 mil fãs de rock aos berros”, como descreve no início da apresentação, gravada em julho de 2018. O teatro comporta apenas 960 pessoas, o que o cantor e compositor de 69 anos classificou como “o menor público para o qual tocou nos últimos 40 anos”. Sozinho no palco com um violão Takamine de cordas de aço — ele usa uma meia dúzia deles, além de piano e gaita, ao longo de duas horas e meia de apresentação —, Bruce começa enumerando alguns dos predicados necessários para se encarar uma típica multidão de um show seu. E já fica claro que, apesar das belas versões de canções como “My hometown”, “Thunder Road” e “Brilliant disguise”, a música não é a tônica de “Springsteen on Broadway”: ela apenas é a trilha sonora da história de um homem que saiu dos cafundós de Nova Jersey para se tornar um dos maiores símbolos do self-made man da música americana, um clássico do tamanho de um Frank Sinatra (outro filho de Jersey, aliás) ou de um Michael Jackson.

    Patti, mulher de Bruce, participa do espetáculo

    Apesar de todo o carinho com sua cidade natal, Long Branch, e o bairro de Freehold, onde cresceu, Bruce é o primeiro a admitir que morava no meio do nada.

    — A uma hora de Nova York! — lembra ele, em um dos momentos mais divertidos. — Mas ninguém cogitava ir até lá, era mais fácil irem à Lua. Logo entendi que eu só seria visto por alguém se saísse do Jerseyguistão. O charme de Nova Jersey, a Jersey Shore (parte costeira do estado)? Nada disso existia, fui eu que inventei tudo. É, sou bom assim mesmo.

    Trailer de "Springsteen on Broadway"

    Antes de cantar “The Promised Land” (“A Terra Prometida”, sucesso do disco “Darkness on the edge of town”, de 1978), ele lembra toda a ralação musical por que passou até deixar a terra natal — a primeira vez foi para tocar em uma festa de réveillon em Big Sur, na Califórnia, o que o levou a cruzar os Estados Unidos de carro em três dias, no começo dos anos 1970.

    As histórias são ótimas, e Bruce é uma espécie de repentista, sabe o ritmo e a entonação precisos para se manter interessante — eventualmente, uma sequência simples de acordes dedilhados dura minutos a fio, apenas como base para os relatos de viagens, lembranças da infância ou a tumultuada relação com o pai, Douglas, morto em 1998.

    — Quando Patti (Scialfa, mulher de Bruce há 30 anos, que participa lindamente do show, cantando e tocando violão) estava no fim de sua primeira gravidez, meu pai dirigiu 500 milhas (cerca de 800km) até minha casa em Los Angeles para fazer uma visita, sem avisar — conta Bruce. — Era o jeito dele. Aí, começamos a tomar umas cervejas às 11h da manhã. Era o jeito dele.

    Na ocasião, Douglas foi se desculpar por ter sido um pai ausente, com uma trajetória marcada por problemas como o alcoolismo e muitos e breves empregos, enquanto a inabalável Adele, sua mulher, sustentava a casa, “trabalhando no mesmo escritório desde o dia em que acabou a escola até 50 anos depois”.

    Sem chafurdar em arroubos ufanistas, o cantor fala de sua visão da Guerra do Vietnã, lembra amigos mortos e, na maior novidade musical do espetáculo, canta uma versão amarga de “Born in the USA”, pontuada pelo slide de vidro percorrendo, rascante, as cordas de aço do violão. Sua canção mais conhecida no exterior, quem diria?, não é uma “Surfin’ USA”, uma celebração do modo de vida americano, mas um relato duro de quem teve “uma arma posta nas mãos” e foi “enviado para matar os homens amarelos”. A essa altura da vida, Bruce ainda é um homem cheio de surpresas. Mas não basta ser fã do grande compositor, é preciso querer conhecer o homem.

    Cootação: Bom


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    O português Fernando Pessoa (1888-1935) não se limitou a criar heterônimos poéticos, como o angustiado engenheiro naval Álvaro de Campos, o monarquista Ricardo Reis e o antimetafísico Alberto Caeiro. Pessoa também inventou outros personagens — em prosa —, como um banqueiro “consciente e convicto” de que a boa prática anarquista levava ao acúmulo de capital. E um português da província que, em um golpe de bêbado, livrou-se de uma dívida e ainda inspirou a expressão “conto do vigário” — o malandro não era sacerdote, mas se chamava Manuel Peres Vigário. Vigário e o banqueiro são personagens de contos de Pessoa publicados na imprensa lusa.

    Salvo “O livro do desassossego”, assinado pelo semi-heterônimo Bernardo Soares, a prosa de Pessoa permanece quase desconhecida deste lado do Atlântico. Dois lançamentos recentes pretendem apresentar o leitor brasileiro aos textos do poeta fingidor: “Contos completos, fábulas & crônicas decorativas” (Carambaia), prefaciado e anotado pelo poeta angolano Zetho Cunha Gonçalves, e “O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos” (Nova Fronteira), organizado pelo poeta carioca Alexei Bueno.

    “Contos completos” traz 14 textos em prosa, como “O automóvel ia desaparecendo”, escrito para a campanha publicitária de uma marca de tintas para carros, e “O marinheiro”, peça teatral simbolista que inspirou um poema de Álvaro de Campos. Há ainda três narrativas inéditas em livro e uma complemente inédita: “Crônica decorativa II”, de 1914, na qual o narrador descobre que “a Pérsia realmente existe”. “O banqueiro anarquista...” reúne 25 textos escritos entre 1907 e 1935. Deles, 19 eram inéditos no Brasil, como “A very original dinner”, que Pessoa escreveu em inglês e depois traduziu para o português. Ambas as antologias incluem três traduções pessoanas de contos do americano O. Henry. Pessoa foi educado na África do Sul e escreveu seus primeiros versos em inglês.

    — A novidade dos contos de Pessoa não se deve simplesmente ao fato de eles não serem conhecidos do leitor, mas de serem uma literatura realmente nova, com a qual não estamos acostumados. Pessoa renovou o que entendemos por conto — afirmou Caio Gagliardi, professor de literatura portuguesa da Universidade de São Paulo (USP) e autor de “O renascimento do autor: autoria, heteronímia e fake memoirs” (Hedra). — O leitor que buscar nesses textos diversão fácil ou imediata pode se decepcionar.

    Pessoa trouxe para a prosa as especulações filosóficas que sustentam sua poesia e acrescentou ainda outros ingredientes: ironia, humor negro e um flerte com o fantástico. Os contos privilegiam a reflexão — as “Fábulas para as jovens nações” terminam em questionáveis conselhos morais — e investem pouco na descrição de acontecimentos ou na construção de personagens tão esféricos quanto os heterônimos.

    — Na ficção pessoana, o arcabouço estritamente ficcional é muito tênue — diz Alexei Bueno. — Em “O banqueiro anarquista”, há uma breve caracterização de dois personagens e uma estrutura dialogal muito simples, quase esquemática. Nada das marcas de um ficcionista como Balzac, Dickens ou Dostoiévski. O prosador é nele mais forte do que o ficcionista. E o poeta vem acima de tudo.

    O banqueiro anarquista, aliás, parece emular o pensamento político de Pessoa, que era avesso às ideologias revolucionárias da esquerda, mas também rejeitava o reacionarismo da direita. No prefácio aos “Contos completos”, Cunha Gonçalves arrisca chamar o banqueiro de “quiçá um semi-heterônimo”. Mas não nos esqueçamos: o poeta era um fingidor.

    — Na imensa obra em prosa, não na prosa de ficção, encontramos as opiniões de Pessoa sobre os mais variados assuntos, da religião à economia, da estética à política, e de maneira mais clara e direta, obviamente, do que na poesia — afirma Bueno. — Podemos falar que o banqueiro anarquista era um alter ego de Pessoa no sentido ideológico e paramos por aí. O banqueiro, afinal, era um homem que sabia ganhar dinheiro, coisa que Pessoa nunca soube fazer.

    Livros:

    80434898_Contos completos fábulas & crônicas decorativas de Fernando Pessoa. Carambaia.jpg

    “Contos completos, fábulas & crônicas decorativas”

    Organização: Zetho Cunha Gonçalves

    Editora:Carambaia

    Páginas: 160

    Preço: R$ 49,90

    80434896_O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos de Fernando Pessoa. Nova Fronteira.jpg

    “O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos”

    Organização: Alexei Bueno

    Editora: Nova Fronteira

    Páginas:320

    Preço: R$ 49,90

    Trecho de "O banqueiro anarquista":

    “Um regime revolucionário, enquanto existe, e seja qual for o fim a que visa ou a ideia que o conduz, é materialmente só uma coisa — um regime revolucionário. Ora, um regime revolucionário quer dizer uma ditadura de guerra, ou, nas verdadeiras palavras, um regime militar despótico, porque o estado de guerra é imposto à sociedade por uma parte dela — aquela parte que assumiu revolucionariamente o poder. O que é que resulta? Resulta que quem se adaptar a esse regime, como a única coisa que ele é materialmente, imediatamente, é um regime militar despótico, adapta-se a um regime militar despótico. A ideia, que conduziu os revolucionários, o fim, a que visaram, desapareceu por completo da realidade social, que é ocupada exclusivamente pelo fenômeno guerreiro. De modo que o que sai de uma ditadura revolucionária — e tanto mais completamente sairá, quanto mais tempo essa ditadura durar — é uma sociedade guerreira de tipo ditatorial, isto é, um despotismo militar. Nem mesmo podia ser outra coisa. E foi sempre assim. Eu não sei muita história, mas o que sei acerta com isto; nem podia deixar de acertar. O que saiu das agitações políticas de Roma? O Império Romano e o seu despotismo militar. O que saiu da Revolução Francesa? Napoleão e o seu despotismo militar. E você verá o que sai da Revolução Russa… Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre… Também, o que era de esperar de um povo de analfabetos e de místicos?…”


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    RIO - A atriz Etty Fraser morreu nesta segunda-feira, aos 87 anos, em São Paulo. A atriz estava internada desde sábado no hospital Hospital São Luiz e sofreu uma insuficiência cardíaca.

    Uma das fundadoras do Teatro Oficina, ao lado de José Celso Martinez Correia e Renato Borghi, Etty era reconhecida por sua atuações no palco. Na televisão, começou na extinta Tupi. Lá, fez mais de dez novelas, entre 1968 e 1980. Destacou-se com papéis em "Beto Rockfeller" (1968), "Sassaricando" (1987) e "Torre de Babel" (1998).

    Nesta última, a personagem Sarita foi pensada por Silvio de Abreu especialmente para ela. A condição para participar foi ter pouco texto para decorar, como ela contou em entrevista ao GLOBO em 1998.

    - Sempre fui um pouco esquecida e tenho dificuldade de decorar muito texto - contou ela, rindo. - No final das contas, acabo fazendo direitinho. Graças a Deus, os diretores da novela são uns amores e não me dão bronca. Pedi para não ter falas longas. Desde o começo da minha carreira tenho o hábito de carregar uma "cola" dentro do sutiã. É como se as falas fossem passar pela pele por osmose....

    Durante oito anos, na década de 1980, Etty comandou "À moda da casa", programa sobre culinária, na TV Record.

    - Me convidaram dizendo que queriam uma excelente atriz que "enganasse" na cozinha. Mas eu sei cozinhar e o que eu não dominava, aprendi. Foi ótimo, porque eu ganhava dinheiro na televisão e trabalhava no teatro à noite - contou ela em 1998, dizendo ainda que acabou deixando o programa porque precisava emagrecer.

    No cinema, venceu o prêmio de melhor atriz do Cine PE por "Durval Discos", longa-metragem de Anna Muylaert de 2002.

    Nas redes sociais, o ator Odilon Wagner foi um dos primeiros a lamentar a morte da atriz. O ator teve a oportunidade de dirigir Etty na peça "A Última Sessão". Realizada em 2014, a peça ainda contou com Nívea Maria, Miriam Mehler, Sylvio Zilber no elenco.

    "Etty sempre foi uma fonte de alegria para todos os que tiveram a oportunidade de conviver com ela", escreveu o ator no Instagram. etty

    Nascida no Rio de Janeiro em 1931, Etty Fraser estudou teatro na Inglaterra e chegou a ser professora antes de se dedicar ao teatro. A atriz foi casada com o ator Chico Martins, morto em 2003.

    Etty Fraser foi velada no cemitério do Araçá, em São Paulo, na manhã desta terça-feira.


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    NOVA YORK - O comediante Louis C.K. ironizou os sobreviventes do massacre de Parkland, na Flórida, que deixou 17 mortos na escola Marjory Stoneman Douglas, em fevereiro de 2018, durante uma apresentação recente. O áudio da apresentação foi publicado por um fã no YouTube. Segundo o usuário que publicou o vídeo, a fala teria acontecido em 16 de dezembro, no Governor’s Comedy Club, em Long Island, onde o comediante está testando novas piadas.

    Acusado de assédio por cinco colegas em 2017, no auge das denúncias do movimento #MeToo, o comediante passou um tempo afastado do showbiz. Desde agosto do ano passado, ele tem feito apresentações em bares de Nova York, numa tentativa de recuperar o prestígio que tinha antes das acusações.

    Durante a apresentação que veio à tona, Louis C.K. afirma que os jovens de Parkland "não são interessantes por terem estudado num colégio onde garotos foram mortos". Desde o massacre, estudantes da Marjory Stoneman Douglas têm liderado um movimento que advoga por maiores restrições à venda de armas nos Estados Unidos.

    "Eles estão dando depoimentos ao Congresso, esses garotos? Você não é interessante porque estudou num colégio onde garotos foram mortos. Por que isso quer dizer que eu tenho que te ouvir? Por que isso te faria interessante? Você não foi morto. Você empurrou alguma criança gorda no caminho e agora eu tenho que te ouvir falando?", ironizou o comediante durante o show.

    "Então naquele dia, 17 crianças foram mortas na escola", completou Louis C.K., ao sustentar em seguida que milhares de pessoas morreram naquele dia nos Estados Unidos "sem ser durante o sono delas".

    Pai de uma das vítimas de Parkland, Fred Guttenberg criticou, pelo Twitter, as declarações do comediante.

    "Se alguém conhecer Louis C.K., por favor entregue essa mensagem para mim. Minha filha foi morta no massacre de Parkland. Meu filho correu das balas. Eu e minha mulher lidamos com a perda todos os dias. Por que você não vem à minha casa e testa suas novas piadas patéticas?", escreveu. parkland

    Um dos sobreviventes da tragédia, Ryan Deitsch também usou o Twitter para se manifestar.

    "É uma pena quando você desce tão baixo que o seu plano para uma volta seja fazer piada de sobreviventes de um massacre numa escola por se posicionarem", afirmou.

    Durante a mesma apresentação, Louis C.K. ainda disse estar "desapontado" com a nova geração. O comediante ridicularizou o fato de que jovens que se identificam como não-binários peçam para serem chamados pelo pronome "eles", no lugar de "ele" ou "ela".

    "Eles são como realeza. Eles que te dizem como você deve chamá-los. 'Você tem que me chamar por "eles". Porque eu me identifico como gênero neutro'. Ah, ok, ok. Você deveria me chamar como "lá". Porque eu me identifico como uma locação", falou o comediante.

    Em novembro de 2017, cinco comediantes mulheres descreveram como inapropriado o comportamento de Louis C.K. com elas. Em uma das situações, o comediante teria se masturbado diante das colegas. Durante o escândalo, acordos na televisão com o artista foram encerrados, bem como o lançamento do seu filme "I love you, daddy".

    Na época, o comediante divulgou um comunicado em que dizia que "as histórias eram verdadeiras" e que "ele se retiraria por um longo tempo para ouvir". Desde que voltou a se apresentar em clubes, no entanto, o comediante tem evitado tocar no assunto.


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  • 01/01/19--12:53: Kianda e Clara
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    NOVA YORK — Eu não esperava que tudo fosse mudar depois que as primeiras acusações contra Hervey Weinstein apareceram, pelo menos não de uma só vez. Mas, quando mulher após mulher se posicionou contra ele, e outras acusaram ainda mais homens de Hollywood de abuso, parecia que o mundo do cinema tinha se deslocado um pouco do seu eixo. Repentinamente, um monte de gente estava ouvindo o que as mulheres da indústria tinham para falar, e, embora muito disso fosse terrível de se escutar, essa atenção pareceu um alívio.

    Entre outras coisas, a chuva de verdades que se seguiu ressaltou o quão comum é o sexismo — não apenas o comportamento criminoso — com que as mulheres precisam lidar diariamente. Ele se infiltra na sua casa e em seu trabalho, e molda tanto as escolhas monumentais quanto as aparentemente triviais. Os filmes podem nos oferecer a promessa de fugas fugazes, mas qualquer mulher pode lhe dizer o quanto esta fuga parece angustiante, depressiva ou evasiva, quando um longa escancara o pior que o mundo nos oferece. Links mulheres

    O que percebi numa vida assistindo e escrevendo críticas de filmes é que a indignação é tediosa e exaustiva. Às vezes, é apenas mais fácil acompanhar o fluxo, apesar do que está acontecendo na tela ou fora dela. Às vezes, eu não quero deixar que o sexismo banal e casual de um filme arruíne meu dia. Então, eu faço acordos estratégicos e convenientes comigo mesma, encobrindo parte do sexismo e ignorando coisas que me incomodam (ou tentando ignorar). Decido que a falta de personagens femininas é aceitável ou não tão ruim e que talvez seja narrativamente justificável. Quero continuar falando sobre o virtuosismo da direção, amando os personagens (masculinos), o trabalho de câmera e a luz misteriosa.

    O MUNDO PÓS-WEINSTEIN

    Isso pode ser pesado, especialmente quando um personagem faz uma observação amarga e desmotivada sobre mulheres, ou quando a câmera passa sobre o corpo feminino — e só sobre ele —, comendo-o com os olhos porque um diretor homem quis assim. Uma das razões para eu apreciar “Nasce uma estrela” é que o diretor e protagonista masculino, Bradley Cooper, dá tempo equivalente de tela para o corpo da outra estrela do filme, Lady Gaga, e ao seu próprio. Mesmo assim, como na maioria dos filmes, este foca no rosto de Gaga quando os amantes estão na cama, uma perspectiva que tanto permite aos espectadores verem-na como ele a vê, quanto transforma seu arrebatamento no emblema de seus desejos compartilhados.

    Outros cineastas homens ou esquecem das espectadoras, ou apenas não ligam para elas, e às vezes o descuido deles pode me fazer desprender da história. Isso aconteceu diversas vezes enquanto eu assistia a “Vice”, o filme de Adam McKay sobre Dick Cheney. Eu gosto de McKay. A primeira vez em que vi “A grande aposta” (2015), sua sátira sobre a crise financeira de 2008, achei que era inteligente ele ter colocado Margot Robbie numa banheira de espuma para explicar o discurso do banqueiro. A cena brevemente me tirou da história enquanto eu ponderava sobre o uso do corpo dela, mas eu rapidamente relaxei. Quando revi o filme recentemente, a achei menos engraçada porque o mundo pós-Weinstein me deixou assim.

    Em “Vice”, McKay pinta o verdadeiro Dick Cheney (Christian Bale) e sua mulher, Lynne (Amy Adams), como Lorde e Lady Macbeth contemporâneos. Isso dá a Adams algo para fazer além de interpretar a esposa do protagonista, mesmo que o papel ainda seja de uma cheerleader conjugal.

    Não é como se estivesse percebendo mais o sexismo, eu sempre o fiz. É que não estou mais ignorando os insultos e as insinuações, a nudez feminina desmotivada tão facilmente como às vezes, resignadamente, fazia. Anos atrás, eu pensava que aceitar certa quantidade de sexismo nos filmes era a única maneira de continuar amando-os. E não poderia ficar com raiva o tempo todo. Era a decisão certa, mesmo que também seja verdade que aceitar — ou concordar com — um certo grau de subjugação é fundamental para a maneira como o sexismo funciona: ele depende de mulheres dando de ombros e seguindo adiante com sua própria opressão.


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    RIO - O fotógrafo e artista plástico Carlos Filho, mais conhecido como Cafi, morreu na madrugada desta terça-feira no Rio de Janeiro, aos 68 anos. Autor de mais de 300 capas de discos da música brasileira, Cafi sofreu um infarto durante a virada do ano no Arpoador. O fotógrafo foi levado ao hospital Miguel Couto, mas não resistiu.

    Nascido no Recife em 1950, Cafi estudou gravura e pintura na Escolinha de Arte do Brasil. Após se mudar para o Rio, ainda na adolescência, começou a pintar cenas do Nordeste. O interesse pela fotografia surgiu após receber de presente das irmãs uma câmera, para que fotografasse seus quadros.

    — Fotografar era um encontro com o outro, porque uma foto nunca é só de quem tem a câmera, é também de quem está do outro lado. Pintar era uma experiência solitária. E a fotografia também era uma maneira de trazer Recife para o Rio. Ia para lá, fotografava e voltava. Coisas como o maracatu, que registrei por 40 anos e que, quando comecei, ninguém no Recife sabia o que era — contou Cafi em entrevista ao GLOBO em 2011.

    36776136_SC - Rio de Janeiro RJ 20-06-2008 - Capa do disco Clube da Esquina - Foto Divulgação.jpgEntre as décadas de 1970 e 1990, Cafi especializou-se em fotografar capas de disco. A primeira foi para Marlene, a convite de Hermínio Bello de Carvalho. Cafi assinou a “vitrine” de “É a maior” (1970) com Carlos Filho. É dele a icônica capa do disco "Clube da esquina", de 1972, fruto da parceria de Milton Nascimento com Lô Borges. Ainda para Milton Nascimento, fez as capas de "Geraes" (1976), "Minas" (1975) e "Milagre dos Peixes" (1973).

    lo-borges-disco-tenis.jpgOutro marco é a capa para o disco solo de Lô Borges de 1972, que ficou conhecido como "o disco do tênis". Sobre ela, Cafi contava que chegou a levar uma bronca do diretor artístico da gravadora Odeon. "Levei um pito do genial Milton Moreira pois já tinha feito (a capa do) 'Clube da esquina', que não tinha letreiro (o nome) dos artistas (...) Daí cheguei com os tênis e ele disse que eu era maluco, porque além de tudo eram tênis velhos. Hoje é a capa do disco do tênis".

    Cafi também trabalhou com Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Azevedo, Nana Caymmi, Jards Macalé e Alceu Valença, entre outros.

    Fundador do Nuvem Cigana

    Cafi ainda foi um dos fundadores do coletivo Nuvem Cigana, que renovou a poesia nos anos 1970. Além disso, foi parte importante da história do Circo Voador, com participação no jornal Expresso Voador e como fundador galeria de artes do circo, a Galeria das Artes.cd-milton-nascimento-minas-novo-D_NQ_NP_946836-MLB27116154966_042018-F.jpg

    A obra de Cafi é tema do documentário inédito "Salve o prazer", do cineasta pernambucano Lírio Ferreira, que tem roteiro do próprio fotógrafo. Entre os últimos trabalhos de Cafi, está o ensaio “Religiosidade profana no asfalto do Rio de Janeiro”, com imagens do carnaval de rua. alceu-valenca-cinco-sentidos.jpg

    Para a coreógrafa Deborah Colker, que foi casada com Cafi por dez anos, o fotógrafo era “um gigante”.

    — Eu sou a pessoa artística que sou porque tive a sorte desse encontro, de ter sido casada com ele. Era um cara que percebia uma situação e a transformava numa potência criativa. Sair com o Cafi para dar um passeio na esquina era perceber o mundo de uma outra maneira. Ele foi um dos primeiros a perceber a força do maracatu no interior de Pernambuco. E fez tantas capas de disco sensacionais. A fotografia dele determinou uma época e o movimento musical de Minas Gerais — recordou Deborah, que trabalhou ao lado de Cafi pela última vez no espetáculo "Cão sem plumas", adaptação do poema homônimo do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), em 2017.

    Filho de Cafi e Deborah, o artista Miguel Colker define o pai como um "poeta visual".

    — Um poeta visual que não gostava só de ver as coisas, mas de viver. Quem conhece meu pai sabe que ele sempre viveu intensamente. Também sempre soube transitar muito bem em diferentes tipos de arte. Teve um trabalho de grande valor com capas de disco, e depois com exposições — afirmou. 35279298_SC Rio de Janeiro RJ 25-08-2011 Cia Dani Lima Foto Cafi - Divulgação.jpg

    Para o fotógrafo e colunista do GLOBO Léo Aversa, Cafi foi um "mestre" para a sua geração.

    — Não era apenas um executor de ideias. Ele ouvia o disco e pensava em como traduzir aquilo em imagens. Como a história daqueles dois meninos da capa do "Clube da esquina", não existe exemplo melhor. Não era só uma coisa de foto bonita, sempre tinha um conceito — relembrou Aversa, que estava trabalhando com Cafi na capa do próximo disco de Jards Macalé.

    35298881_SC Rio de Janeiro RJ 25-08-2011 Torre de Babel obra de Cafi exibida na exposição O fio da m.jpg— Anteontem (dia 30) mesmo ele me mandou duas ideias que teve. Éramos vizinhos, Jards, ele e eu, então quando fui convidado para fazer esta capa tive a ideia de chamá-lo, porque é minha maior referência para esse tipo de trabalho. Foi uma honra, porque além de tudo ele era uma pessoa fantástica. anaholanda

    No Twitter, a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda lamentou a morte do fotógrafo.

    "Cafi, meu querido, até você nos deixou?", escreveu Ana, que perdeu a irmã, a cantora Miúcha, na semana passada.

    Cafi deixa os filhos Miguel, Clara e Joana e três netos, Theo, Alice e Julien.


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    RIO - Quando subir ao palco do teatro PetroRio das Artes, amanhã, o ator, produtor e roteirista Silvio Guindane estará concluindo um projeto no qual trabalha há oito anos. A história começa em 2010, quando ele encenava uma peça em Portugal, e foi inspirado a partir de um comentário do diretor Walter Lima Jr. Para o veterano, o clássico do cinema “Perfume de mulher” faria bonito em cima do palco.

    Links perfume de mulherDe volta ao Brasil, Guindane começou a pesquisar tudo sobre os dois longas que tornaram conhecida a história do militar Fausto, que vive isolado num quarto escuro após ficar cego em um acidente. O primeiro, “Profumo di donna”, de 1974, dirigido por Dino Risi e estrelado por Vittorio Gassman. E o remake de 1992, “Scent of a woman”, protagonizado por Al Pacino, que rendeu ao ator seu primeiro Oscar e um Globo de Ouro (além de mais dois Globos, de melhor filme/drama e roteiro).

    Ambos foram inspirados no livro “A escuridão e o mel”, de Giovanni Arpino (1969), que ganha agora sua primeira adaptação mundial para o teatro. Um trabalho ao qual se dedicaram, além do próprio ator, Lima Jr. e Pedro Brício. Só para achar e comprar os direitos da obra — que conta a viagem que o militar planejou fazer com seu cuidador, Ciccio, para curtir a vida antes de se matar —, foram cinco anos.80236564.jpg

    — Depois começou a saga da montagem. Conseguimos parte do dinheiro ainda em 2017, mas não fechávamos a data, elenco, teatro. Já era uma piada interna. A gente saía para jantar e “pô, e o perfume, hein?” — brinca Guindane. — Eu comecei a fazer esta peça para viver o cuidador do Fausto. Mas demorou tanto tempo que eu envelheci (risos). O tempo foi passando, e teve uma hora em que o Walter chegou e falou: “Cara, você não sacou ainda, né? Mas você é o Fausto!”

    O diretor, que conhece o ator desde a época em que ele estreou no cinema — aos 11 anos, em “Como nascem os anjos” (1996), de Murilo Salles —, acredita que ele havia encontrado um grande personagem, mas fingia que não.

    — Ele merece. É até muito modesto. Nem pegou o protagonista para ele, embora fosse produzir a peça — conta Lima Jr., avisando ao público que não espere ver um Al Pacino. — Gosto dele, mas não vai haver uma sessão espírita. O Silvinho é negro, cara! Isso muda toda a ótica, dá uma brasilidade ao texto. Acho que ele tinha escolhido o cuidador porque estava preocupado com a expectativa do público.

    Recusa de José Mayer

    A busca inicial foi por um ator “compatível” com Gassman ou Pacino para interpretar Fausto. Alguém mais maduro e de renome, como José Mayer, que recusou.

    — Foi um dos primeiros que a gente tentou, mas ele não queria fazer nada na ocasião. Eu achei ótimo. A gente foi tentando outros, que sempre tinham argumentos para declinar. Graças a Deus — ri o diretor.

    Com o papel de Ciccio (que na versão americana ficou com Chris O’Donnell, indicado ao Globo de Ouro de coadjuvante), ficou Eduardo Melo, de 21 anos, que, assim como Guindane, começou cedo, aos 5. De lá para cá já atuou em seis novelas e nove filmes, como “De pernas pro ar 3”, previsto para estrear em abril, e na produção americana “Sergio”, também deste ano, no papel do filho de Wagner Moura. Como irmão de Fausto, um padre com quem ele tem o diálogo em que o público fica sabendo as circunstâncias do acidente que o cegou, está Saulo Rodrigues.

    Presente em apenas uma cena no filme americano, Sara ganha destaque no palco. E Gabriela Duarte foi convidada para fazer o papel do grande amor que Fausto reencontra depois de ficar cego.

    — A gente sentiu muita necessidade de ter este personagem. Porque, além de enriquecer o do Fausto, montar um “Perfume de mulher” em 2019 sem a mulher seria feio, né? Precisamos botar a mulher em cena. E é um personagem tão lindo — conta Guindane, que destaca a relevância da peça nos dias de hoje. —As pessoas estão cada vez mais sozinhas, individualistas, com olho no celular. E a peça fala o contrário disso, sobre como um pode ajudar a mudar a vida do outro de verdade. Também a questão de ele ser cego é importante. A peça ajuda a tirar o cego do lugar de coitadinho. Para entendê-lo melhor, comecei a ensaiar de olhos fechados. Demorei um mês para abri-los, até sentir segurança.

    Para colocar os espectadores no clima, o espetáculo tem uma trilha sonora de ruídos que traduz os sentimentos do militar. Também estão lá a Ferrari e o tango, marcas registradas do filme com Al Pacino.

    — O tango é um desafio enorme. Eu não danço nada, mas adoro desafios. Além do mais, o tango tem esse jogo de afastamento e proximidade que tem tudo a ver com os personagens — observa Gabriela.

    Serviço:

    Onde: PetroRio das Artes – Shopping da Gávea

    Quando: De 3 de janeiro a 24 de fevereiro, às 21h (qui a sáb) e 20h (dom)

    Quanto: R$ 80/ R$ 40 (meia) às quintas; R$ 90/ R$ 45 (meia), de sexta a domingo:

    Classificação: 14 anos


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    RIO - Eleven e seus amigos já têm data para retornar à televisão. A Netflix aproveitou a chegada do ano novo para anunciar a data de estreia da terceira temporada de "Stranger things". Os novos episódios fazem sua estreia mundial em 4 de julho, feriado nos Estados Unidos.

    O teaser de um minuto divulgado pela Netflix não revela muitos detalhes sobre a trama de 2019. Ao invés disso, vemos imagens da transmissão na TV da virada de ano novo em Nova York em 1985, ano em que a terceira temporada se passa.

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    RIO - “Perfume de mulher” marca o início de um novo tempo no antigo Teatro das Artes, agora Teatro PetroRio das Artes. Ao completar vinte anos, a casa de espetáculos acaba de fechar uma parceria com a maior produtora independente de petróleo do país, que passa a lhe dar não apenas o nome, mas um patrocínio que gira em torno de R$ 2 milhões por ano. São dois anos de contrato, renováveis. E a empresa passa a influenciar em um terço da programação da casa, opinando na seleção de peças, shows, palestras. A peça de Silvio Guindane, por exemplo, foi uma das patrocinadas pela PetroRio em 2017 e que ainda não tinha sido encenada

    Links perfume de mulherUma das grandes apostas da petrolífera é o lançamento do edital “Música Por Toda Parte”, no dia 8 de janeiro, para levar ao palco do teatro shows de artistas de rua (solos, em duplas ou bandas) do Rio. Selecionados em fevereiro, eles se apresentarão nas Quartas Musicais a partir de de março.

    — Não são projetos grandiosos e milionários. Eles resgatam a cultura, dão chance a quem não tem possibilidades e oportunidades. Nosso objetivo é democratizar o acesso ao teatro, abrir a porta e deixar entrar quem pode e quem não tinha condições entrar. Não queremos mais levar o professor de teatro até as comunidades. A gente quer que a comunidade entre no teatro, que conviva com a Zona Sul, com o shopping da Gávea, que seja absorvida pela população, e não ficar à margem. Para isso daremos ingressos, oficinas e palestras gratuitos — conta Tatianna Trinxet, gestora e curadora do projeto de naming rights do PetroRio das Artes, que ao entrar no shopping para dar a entrevista ao GLOBO aproveitou para distribuir seu cartão aos jovens violinistas que se apresentavam na calçada, convidando-os a se inscrever no edital. — Queremos que este edital chegue ao máximo de pessoas para que a gente receba o máximo de inscrições. 8X7A3735.JPG

    Ela explica que o público não vai pagar para ouvir esses artistas de rua e eles, além de ter a oportunidade de mostrar seu trabalho, vão ganhar um cachê. A princípio dez deles vão até receber salário para se apresentar inclusive em outros pontos da cidade ao longo do ano inteiro. O próximo passo é buscar gravadoras e outros parceiros para montar uma rede que alavanque ainda mais esses músicos.

    Segundo Tatianna, este objetivo social foi um complicador nos planos da empresa de patrocinar uma casa de espetáculos. O das Artes foi o quinto teatro com o qual a empresa buscou parceria em dois anos de tentativas:

    — Todo mundo quer patrocínio, mas nem todo mundo queria isso ou tinha seu departamento financeiro em ordem. Aqui, tudo funcionou.

    Rosali Finkielsztejn, que desde 1998 administra a casa, também está satisfeita:

    — Foi com muita alegria que recebi a proposta da PetroRio em investir em arte feita em um momento especialmente delicado, onde os incentivos são cada vez mais escassos.

    Os interessados em participar do edital “Música Por Toda Parte” devem enviar para o e-mail teatropetroriodasartes@petroriosa.com.br um vídeo executando três canções, currículo/portfolio com histórico de apresentações e o setlist sugerido para o projeto, com duração de uma hora de show.


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    RIO — Willem Dafoe tem uma conexão conhecida com o Brasil. Atuou em palcos paulistanos e cariocas em 2014, com o espetáculo surrealista “A velha”, de Robert Wilson, um dos principais nomes do teatro de vanguarda nos EUA. A ocasião levou ao encontro do ator com Hector Babenco, com quem trabalharia no último longa do diretor, “Meu amigo hindu” (2015).

    Agora, o americano de 63 anos se dedica ao seu maior projeto com DNA brasileiro. Ele passou o Natal em São Luís do Maranhão buscando locações para o longa “Tropico”, que vai produzir e protagonizar. Com filmagens previstas para abril e estreia em dezembro, será dirigido pela sua mulher, a italiana Giada Colagrande.

    Willem Dafoe— Minha relação com o Brasil pode parecer casual, mas nasce de uma paixão de mais de 15 anos, quando conheci Seu Jorge nas filmagens de “A vida marinha com Steve Zissou” (2004), de Wes Anderson. A gente até gravou o clipe de “Tive razão” — lembra Dafoe, em entrevista exclusiva ao GLOBO na véspera do réveillon no restaurante de um hotel do Leblon, usando bermuda e chinelos e parando de vez em quando para tirar selfies com fãs.

    Parecia à vontade, mas não quis desviar o foco de sua mulher, com quem está casado desde 2005. Mais de uma vez pediu que Giada respondesse por ele. Os dois se conheceram após Dafoe ficar fascinado com o primeiro longa dela, “Aprimi il cuore” (2002). Um amigo os apresentou e “outras coisas acabaram acontecendo”, ri o ator, enquanto toma café da manhã diante de uma vista panorâmica da praia. Desde então, trabalhou em todos os filmes da italiana, a quem atribui até mesmo seu conhecimento de cinema e música brasileiros. Em 2011, estiveram no Festival do Rio para apresentar a sessão de “Amor obsessivo” (2010).

    — A verdade é que minha cultura cinematográfica é muito pobre. Eu venho do teatro. Minhas referências estrangeiras eram filmes europeus. Voltava das filmagens de “Meu amigo hindu” e ela me mostrava filmes brasileiros, não só porque estávamos hospedados aqui, mas também para conhecer os atores com quem poderíamos trabalhar no futuro — diz Dafoe. A trajetória de Willem Dafoe e passagem pelo Brasil

    No elenco de “Tropico”, que já assegurou distribuição nacional pela Pandora Filmes, estão confirmados nomes como Sonia Braga, João Miguel, Seu Jorge e Morena Baccarin — a brasileira radicada nos EUA que estrelou as séries “Gotham” e “Homeland”, pela qual foi indicada ao Emmy. Ela também está escalada para a terceira temporada de “Sessão de tearapia” (Globoplay).

    Descrito como um noir ambientado nos Lençóis Maranhenses, em meio a uma comunidade indígena, o projeto mistura suspense e romance para tratar de identidade e sincretismo religioso. Conta a história do espião Raymond Sanz (Dafoe), contratado para investigar um caso de má gestão em uma empresa do Nordeste brasileiro.

    Ele se envolve com as gêmeas Olivia e Lucia (papel duplo de Morena Baccarin), esta casada com um empresário americano e possível alvo de investigação do protagonista. O conflito de interesses se agrava quando o espião descobre que as duas são filhas de seu chefe. Paralelamente, as irmãs mantêm uma relação com um centro espiritual comandado pela sacerdotisa Cora (Sonia Braga).

    Com roteiro de Barry Gifford, parceiro de David Lynch em “Coração selvagem” (1990) e “Estrada perdida” (1997), o filme partiu do desejo de Giada de rodar um noir inspirado em clássicos dos anos 1940, como “A dama de Shanghai” (1947), de Orson Welles, “Gilda” (1946), de Charles Vidor, e “A carta” (1940), de William Wyler.

    — Queria que a trama se passasse num lugar com histórico colonial e exótico para os padrões americanos e europeus — afirma Giada. — Cogitei o Pelourinho, na Bahia, mas quando vi imagens dos Lençóis Maranhenses fiquei impactada. Eu queria uma terra sagrada que proporcionasse um elemento mágico e espiritual, e o Brasil tem uma mistura enorme de religiões e filosofias europeias e africanas.

    Por que a premissa despertou o interesse de Willem Dafoe? Ele apenas quer estar disponível para os projetos da mulher, responde. Atualmente em cartaz em “Aquaman”, o americano é conhecido por atuar tanto em blockbusters (como “Homem-Aranha”, de Sam Raimi), e obras autorais. Já recebeu três indicações ao Oscar e, no domingo, disputa o Globo de Ouro pelo papel de Van Gogh na cinebiografia “No portal da eternidade”, de Julian Schnabel, que estreia em 7 de fevereiro.

    Sobre escolhas profissionais, o ator desconversa.

    — Não fiz TV, ainda tenho filmes interessantes para fazer e, para ser honesto, não é o momento de falar disso — diz, sobre a possibilidade de fazer séries, como outros colegas de Hollywood. — Estou menos preocupado com a carreira e mais em trabalhar com quem eu gosto.


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