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    RIO - Lá pelos idos de 2015, Emily Blunt recebeu um telefonema de Rob Marshall, diretor com quem tinha trabalhado no filme “Caminhos da floresta” (2014, versão para as telas do clássico musical “Into the woods”), com uma proposta indecente: estrelar uma continuação de “Mary Poppins”, monolito do cinema de 1964 que trazia ninguém menos do que a rebelde noviça Julie Andrews no papel da babá voadora. A conversa com Marshall (famoso por filmes como “Chicago” e um dos volumes da franquia “Piratas do Caribe”) era simples: a atriz inglesa de 35 anos embarcava no projeto com que o diretor sonhava desde que tinha visto o filme original, na infância, ou ele partiria para outra.

    — Só faremos se for com você — deu, delicadamente, o ultimato.

    O resto, como o mundo já sabe, é história, que se conclui nesta quinta-feira com a estreia de “O retorno de Mary Poppins”, em que a babá de nariz empinado volta à casa da família Banks para dar uma força ao recém-viúvo Michael (Ben Whishaw), um bancário sem um tostão que tenta, com a ajuda da irmã, Jane (Emily Mortimer), criar os pequenos Anabel, John e Georgie.

    — Emily Blunt é Mary Poppins — diz Marshall. — Eu me apaixonei por ela em “Caminhos da floresta”. Para fazer Mary você precisa ser uma grande atriz e entender a especificidade do personagem, uma mulher durona, mas, ao mesmo tempo, repleta de humanidade, e capaz de fazer rir. O humor dela é fundamental. E ela também tem que saber dançar e cantar. E também queria que ela fosse britânica, pronto, falei. É uma mulher iconicamente britânica. Se não fosse a Emily, não saberia o que fazer.

    Depressão e Brexit

    Como se vê, foi pequena a pressão nos ombros da atriz — que só cantou profissionalmente em “Caminhos da floresta”. Antes, tinha arranhado um violoncelo nos tempos de escola, na Inglaterra. Diferente do original, passado na década de 1910, o novo filme acontece nos anos 1930, como no livro da australiana (também radicada na Inglaterra) P.L. Travers. O que significa que Londres é ainda mais cinza do que o normal, mergulhada em uma crise econômica decorrente da Grande Depressão de 1929. Isso encontra um paralelo na vida real: quando o processo começou, em 2015, o Reino Unido ainda não tinha promovido o referendo que decidiu por sua saída da União Europeia — o Brexit, em discussão até hoje.

    — Mary Poppins surgiu em 1934, logo após a Grande Depressão — conta Marshall. — A ideia é de uma mulher, uma figura mágica, tentando trazer alegria e deslumbramento para uma família e uma sensibilidade juvenil para os adultos, que perderam a capacidade de se conectar com o mágico por conta das dificuldades da vida real. Trailer de "O retorno de Mary Poppins"

    Além de Emily — que conseguiu, no meio de todo o projeto, uma licença-maternidade para se dedicar a Violet, sua segunda filha com o ator americano John Krasinski, nascida em julho de 2016 —, Marshall escalou outra estrela em ascensão do mundo do entretenimento, mas vindo de outro extremo: Lin-Manuel Miranda, autor e astro do consagrado musical “Hamilton” (antes, ele já tinha chamado a atenção com “In the Heights”), diretamente da Broadway (e de sua origem porto-riquenha) para a Londres estilizada da Disney. Ele interpreta Jack, o acendedor de lampiões amigo de Mary.

    — Lin traz para o filme um quê fundamental de contemporaneidade — elogia o diretor. — Ele tem uma pureza, que, como o personagem, é essencial para fazer par com a Mary de Emily. Também é muito significativo ele ter decidido que este seria seu primeiro projeto depois de “Hamilton”. O filme se passa em 1934, mas foi feito em 2018. O personagem é um homem do povo. Lin entende isso como ninguém.

    Marshall diz que pesou todos os lados.

    — Quando a Disney me ofereceu o projeto, pensei no mundo hoje — conta ele. — Precisamos desesperadamente encontrar o equilíbrio entre as dificuldades de nossos tempos e o universo repleto de esperança e fantasia de Mary Poppins. Por conta da vida real, a importância deste filme foi crescendo. Por isso conseguimos ter nomes como Meryl Streep (a prima Topsy) e Colin Firth (o vilão Wilkins) no elenco. Meryl disse, sem rodeios: “Precisamos trazer Mary de volta neste momento. Agora”.

    80348138_RS - Emily Mortimer Nathanael Saleh Pixie Davies Julie Walters Lin-Manuel Miranda Joel Daws.jpg

    Lin-Manuel Miranda: do sucesso 'Hamilton', na Broadway, para o papel de Jack, o acendedor de lampiões

    Nova-iorquino de origem porto-riquenha, Lin-Manuel Miranda é algo assim como o Midas da Broadway, onde seus “Hamilton” e “In the Heights” foram sucesso estrondoso de crítica e público. O Jack de “O retorno de Mary Poppins” é seu primeiro papel de destaque no cinema.

    Como você acabou parando na nova Mary Poppins?

    Estava fazendo “Hamilton”, e Rob (Marshall) marcou uma conversa comigo, entre a matinê e o espetáculo da noite. Conversei com ele todo descabelado, curioso para saber do que se tratava. E, de cara, adorei ser uma continuação do filme clássico e não um remake. Fazer o Jack, claro, é uma das grandes honras da minha vida. Agora, sou um cara do teatro, né? É a primeira vez que faço um filme desse tamanho. Mas quando comecei a balbuciar algo nesta linha, Rob me lembrou: “Ué, e você acha que eu venho de onde?”

    Fez alguma diferença a experiência anterior de Rob nos palcos?

    Sim, pois tivemos três meses de ensaio antes de começar a filmar. Nem musicais da Broadway, hoje em dia, conseguem esse luxo. Tivemos uma exploração minuciosa de cada letra, cada nota musical, cada ângulo da história, exaustivamente, no bom sentido da palavra. Nada muito diferente do que havia feito, por exemplo, com “Hamilton”. Eu me senti em casa.

    Como é a parceria entre Mary e Jack?

    Mary é uma espécie de mito para o Jack. A relação dos dois é especial. Ele é o cara que acende as lâmpadas em toda Londres, o que é uma metáfora óbvia para o que ele representa na história. Ele acaba assumindo o papel que, no primeiro filme, foi do Dick Van Dyke, o Bert, que era o parceiro das estripulias de Mary.

    Por que voltar a Poppins?

    De certa maneira, Mary Poppins é mais necessária nos anos 1930, no entre-guerras em Londres, que é onde iremos encontrá-la agora, do que na versão do filme de 1964, que se passa na Grã-Bretanha eduardiana, na década de 1910. E, zanzando por tempos históricos, também foi ótimo ter filmado no momento em que o mundo lá fora tinha de lidar com o Brexit e a eleição de Donald Trump. Minha cabeça estava concentrada em fazer algo que levaria alegria para as pessoas. E era preciso. Há uma razão pela qual os musicais da MGM floresceram durante a Grande Depressão. E acredito ser preciso, sim, viajar novamente com Mary Poppins e sua trupe nos dias de hoje.


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    O cineasta francês Christophe Honoré atravessou a década de 1990 à flor da pele, sempre à espera de um desfecho trágico. Na época um jovem homossexual de 20 e tantos anos, acreditava que a Aids era uma prova que ele e todos aqueles classificados pela sociedade como “grupo de risco” deveriam enfrentar. Via-se destinado a contrair a doença. Mas, longe de deixar o medo paralisá-lo, tentou abraçar a vida com um ímpeto ainda maior.

    HonoréMais de duas décadas depois, o espírito desses anos ressoa agora em “Conquistar, amar e viver intensamente”, seu novo trabalho, que estreia hoje. No longa, um escritor quarentão condenado pelo vírus (Pierre Deladonchamps) se apaixona por um jovem estudante (Vincent Lacoste). Enquanto presencia os últimos momentos de um amigo próximo, pondera sobre os impactos emocionais de um novo amor. A morte bate à porta, o coração tem pressa, e ele precisa equilibrar ternura e desespero, esperança e realismo.

    — Tentei reencontrar esse meu tempo de juventude e interrogar esse estranho sentimento de medo — diz Honoré, em entrevista por Skype, de Paris. — Na época, eu fiz de tudo para que esse medo não me imobilizasse. Ao contrário, queria que ele acelerasse minha vontade de viver. De forma um pouco boba, achava que a Aids cairia em mim, que havia um destino marcado.

    O tempo contrariou a previsão: para o cineasta, hoje está cada vez mais claro que se tratava de uma doença “sofrida”, não “prometida”. Com essa ideia em mente, conseguiu transformar um tema tão pesado em uma comédia tão leve quanto grave, tão bem humorada quanto trágica. Ovacionado no Festival de Cannes deste ano, em que concorreu na seleção oficial (sem receber nenhum prêmio), foi imediatamente comparado a “120 batimentos por minuto” — outro filme sobre Aids nos anos 1990 exibido na Croisette. Mas a diferença para no tema: enquanto o longa de Robin Campillo é um grande manifesto político, “Conquistar” aposta no espetáculo e no entretenimento.

    — Tentei evitar qualquer tipo de solenidade — diz Honoré. — Como espectador, fico aflito ao ver no cinema francês uma espécie de injunção. Como se houvesse uma tomada de poder do cineasta sobre seus assuntos e formas, que deixam pouco espaço para o humor, para as amenidades do relato, e, no fim das contas, para a própria reflexão.

    80352107_SC - Christophe Honoré diretor do filme Conquistar amar e viver (1).jpgA severidade de Honoré com os colegas não surpreende quem acompanha sua carreira de crítico. Autor de vários textos controversos na tradicional revista “Cahiers du Cinéma” nos anos 1990 e 2000, tem várias obras marcadas pela cinefilia e o seu conhecimento dos filmes (especialmente em relação à herança da nouvelle vague dos anos 1950-1960, muito presente em seu longa mais famoso, “As canções de amor”).

    “Conquistar...” é repleto de referências aos anos 1990, da trilha sonora à citação de filmes da época, passando pela alusão a algumas personalidades da cinefilia francesa. Tudo muda, porém, no que diz respeito às referências visuais. Isso porque a arquitetura, o interior e o design dos anos 1990 praticamente desapareceram, segundo o diretor, junto com uma década facilmente descartável. Algo que fica muito claro no clima de transitoriedade e incerteza do filme.

    — Foi um período de mudanças violentas — diz Honoré. — A década não teve invenções estéticas e foi subitamente sugada para um passado esquecido. Nós, jovens, sentíamos que o mundo queria se livrar de nós e investir numa outra juventude, a dos anos 2000. Como se quisessem passar rápido para outra coisa, que acabou sendo a internet, o terrorismo....


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    RIO — Se rir é o melhor remédio, doses generosas de humor são bem-vindas para curar as dores de um ano difícil. Especialistas em fazer graça, Dani Calabresa e Marcelo Adnet foram escalados para dar plantão extra juntos em pleno dezembro. Provando que as feridas do fim do casamento estão devidamente saradas, o ex-casal comanda “A gente riu assim”, uma retrospectiva bem-humorada de tudo o que rolou no país em 2018. E que ninguém duvide de que dá para fazer a tristeza de ontem virar a diversão de agora! O especial vai ao ar esta noite, após “O sétimo guardião”, com a promessa de arrancar gargalhadas do público.

    — Mesmo que tenham acontecido coisas bizarras e estranhas, a gente quer mostrar que o bom humor predomina e que dá para brincar com muita coisa. Vai ser um programa divertido — garante Dani.

    Adnet concorda.

    — Cheio de emoções, 2018 foi pesado. Copa do Mundo, eleições... Vamos tentar rir nessa retrospectiva. O humor é fundamental.

    Destaque no período pré-eleitoral ao fazer imitações dos presidenciáveis, o líder do “Tá no ar”, que estreia nova temporada no dia 15 de janeiro, consegue enxergar um lado cômico no cenário político do país.

    — As eleições, apesar de tensas, trouxeram momentos bastante engraçados e com personagens marcantes. Não é fácil fazer piada, mas é necessário — frisa ele.

    Dani conta que, em alguns momentos, foi difícil aguentar o clima pesado. Mas destaca que é preciso olhar as coisas com mais leveza:

    — Achei um desgaste desnecessário o que aconteceu nas eleições. As pessoas são diferentes, e a gente tem que respeitá-las. Não saí de grupos do WhatsApp, mas confesso que não estava aguentando mais tanta mensagem e tanta provocação. Precisamos torcer e ter esperança de viver num país mais digno.

    Juntos pelo humor

    Dani Calabresa não hasteia a bandeira da paz apenas na teoria ou em questões políticas. Prova disso é a relação de amizade que tem com o ex-marido Adnet, com quem ela foi casada por seis anos.

    — Foi muito tranquilo trabalhar com ele. Fiquei feliz. A gente se dá muito bem e eternamente vamos ser fãs um do outro. Sempre tivemos muita química trabalhando juntos, desde a MTV, ou fazendo stand-up, espetáculos de comédia... Adnet é um gênio. Tivemos anos muito felizes e agora seguimos com uma amizade boa e uma parceria de trabalho melhor ainda. Não tem nenhum comediante com talentos parecidos com os dele — elogia a ex-mulher.

    Adnet devolve com o mesmo carinho. Ele comemora o retorno da dupla, que, mesmo sem ser mais um casal, uniu-se novamente para levar alegria ao fim de ano das pessoas:

    — Foi ótimo gravar com a Dani. Sou sua fã e gostamos de trabalhar juntos. Ela é muito divertida, espirituosa... Fiquei feliz em reviver nossa parceria.


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    RIO — Pela primeira vez desde que o CD se estabeleceu como a plataforma mais importante de lançamentos musicais, as indicações para o Grammy de melhor ábum do ano possuem projetos que não saíram nesse formato nos EUA. A informação foi publicada pela "Billboard".

    Os álbuns" Invasion of Privacy", da Cardi B, e "H.E.R", da cantora homônima, pularam o disco compacto em seus lançamentos oficiais. No lugar, favoreceram o streaming, os downloads digitais e até o cada vez mais revisitado vinil. Segundo a "Billboard", é a primeira vez desde 1984 que há indicados ao álbum do ano sem lançamentos em CD.

    Os CDs foram lançados comercialmente em 1982, mas fizeram sua primeira incursão no Grammy em 1984 com "Thriller" de Michael Jackson e "Synchronicity", do Police.

    Indicações ao prêmio sem lançamentos em CD são mais um sinal da grande crise que a plataforma enfrenta. O declínio das vendas desse formato vem disparando nos últimos anos. Em 2007, os CDs representavam 90% das vendas de álbuns nos Estados Unidos. Já, no ano passado, essa fatia caiu para pouco mais de 18%, segundo a publicação.


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  • 12/20/18--13:40: Os dias felizes ficarão
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    RIO — Parceiros desde 2011, a brasiliense Bárbara Wagner e o alemão Benjamin de Burca desenvolveram uma série de obras audiovisuais a partir da união de linguagens diversas, da performance ao cinema documental, investigando temas como o universo do brega pernambucano (“Estás vendo coisas”) ou os aspectos sociais e estéticos por trás da indústria gospel (“Terremoto santo”). Essa visão plural da dupla radicada no Recife será levada à 58ª Bienal de Veneza, em maio de 2019, quando uma obra comissionada ocupará o Pavilhão do Brasil no evento.

    Bienal O anúncio foi feito ontem pela Fundação Bienal de São Paulo e pelos ministérios da Cultura e das Relações Exteriores, responsáveis pelas representações brasileiras em Veneza. Na ocasião também foi anunciado o nome do curador do espaço, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro. Curador da 33ª Bienal de São Paulo, encerrada no último dia 9, Pérez-Barreiro seguiu alguns critérios para selecionar a dupla:

    — Queria que fosse alguém que não tivesse participado desta edição da Bienal de São Paulo, que o pavilhão fosse focado em uma única produção, ainda que de autoria de uma dupla, e selecionar alguém em início ou meio de carreira — detalha ele. — Desde o início os nomes deles estavam em vista, e foi uma escolha relativamente fácil, diante da forma instigante com que representam a cultura brasileira e sua diversidade.

    O tema geral da bienal italiana este ano, definido pelo curador americano Ralph Rugoff, parte da frase “May you live in interesting times" (“Que você viva em tempos interessantes”), falsamente atribuída a uma maldição chinesa, para debater questões como a disseminação de notícias falsas e o momento da “pós-verdade”. Ainda que a representação dos países não tenha necessariamente que dialogar com o tema central do evento, Bárbara vê uma coincidência entre a produção do trabalho desenvolvido com Benjamin e a proposição geral da curadoria.

    66182817_EC São Paulo SP 06-04-2017 Bienal Na foto Gabriel Pérez-Barreiro é o novo curador da Biena (2).jpg— A gente propõe uma investigação que não indica se algo pode ser chamado de verdade ou não, é quase um rasgo nessa impressão de que vivemos num mundo onde a verdade está de um lado e o falso de outro — observa Bárbara, vencedora do Prêmio Pipa 2017. — Tem uma questão geracional também, já que as pessoas que estão em nossos filmes são, na maioria, pertencentes a grupos que estão mais expostos a realidades que são construídas dentro do ambiente virtual.

    Quando o convite foi feito, há dois meses, a dupla tentava retomar um projeto anterior de curta, que irá virar a obra comissionada para Veneza. No momento, Bárbara e Benjamin estão selecionando artistas que vão participar da obra e, em janeiro, eles viajam para a Itália, para conhecer o espaço do pavilhão. A previsão é concluir o vídeo até abril.

    Cena de 'terremoto santo'— Como nosso processo é aberto, é difícil definir agora um tema para o vídeo. Mas tem a ver com os universos com que a gente trabalha, a música, a cultura popular, as relações com o corpo — comenta Bárbara. — O Gabriel confiou totalmente na nossa prática, em que a investigação conduz a obra. Mas só pudemos aceitar o convite por termos este projeto em mente, não partimos do zero.

    Vivendo no Brasil desde 2012, Benjamin (que foi casado com Bárbara até 2015) acredita que pode contribuir com uma visão global na representação brasileira em Veneza:

    — Tem um lado que me deixa um pouco ansioso, mas ao mesmo tempo não sou ligado a questões nacionalistas. Eu nasci em Munique, mas me consideraria holandês, porque fui criado lá. E o trabalho que desenvolvo aqui está ligado a questões comuns a todo o mundo.

    Cena de 'Estás vendo coisas'Nas últimas representações brasileiras, o vídeo teve espaço com a obra de Berna Reale, “Rosa púrpura”, em 2015, quando a artista paraense dividiu com Antonio Manuel e André Komatsu o pavilhão do país na 56ª Bienal de Veneza. Tradicionalmente, linguagens como instalações, pintura e fotografia são mais explorados pelos artistas convidados. Para Bárbara, o fato de o país ser representado com uma obra em vídeo ano que vem demonstra o potencial da linguagem.

    — Nosso trabalho tem um trânsito, porque não se insere exatamente no cinema nem no circuito tradicional de arte. É uma conquista para uma geração de artistas, que estão interessados nessa prática, que uma obra com essas características possa estar no centro de uma representação. É sintomático do momento, como se as outras formas de arte não dessem conta sozinhas de abordar tudo o que está acontecendo, e formas mais híbridas criassem esse espaço — conclui Bárbara.


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    RIO — Ao buscarmos na internet o nome do americano Charlie Puth, anunciado nesta quinta junto com a cantora britânica Jessie J, como atração do Palco Sunset do próximo Rock in Rio, saltam aos olhos números estratosféricos. No Spotify, são 19 milhões de ouvintes mensais. O clipe de “See you again”, faixa-chiclete dividida com o rapper Wiz Khalifa na trilha de “Velozes e furiosos 7” (2015), foi visto 3,9 bilhões de vezes no YouTube. O de “We don’t talk anymore”, com Selena Gomez, outras 2 bilhões. Os números, frios, não empolgam Puth. Muito pelo contrário.

    — Eu odeio cada música do meu primeiro álbum, exceto as que eu fiz. Infelizmente, eu permiti que a gravadora fizesse o que quisesse comigo naquele disco. Quase nada daquilo sou eu — lamenta, ao lembrar da fase de “Nine track mind” (2016), em papo por telefone com o GLOBO.

    Shows 2019Aos 27 anos recém-completados, porém, Charlie Puth está finalmente satisfeito com o trabalho. Lançado em maio, “Voicenotes”, seu segundo álbum, tem a cara do cantor e compositor: ele conseguiu convencer a Atlantic, um dos selos ligados à Warner Music, de que poderia capitanear a própria carreira. Diferentemente da estreia, Puth assina e produz todas as faixas de “Voicenotes”, cujo repertório trará ao Rock in Rio em seu primeiro show na América do Sul.

    — Essa liberdade foi possível porque eu consegui fazer ótimas músicas sozinho, e a gravadora percebeu minha capacidade. Eu não ligo muito para o que eles pensam sobre mim, na verdade, mas estou feliz por finalmente ter mostrado ao mundo, com esse disco, quem eu sou — comemora o americano de Nova Jersey, “nerd musical” confesso, filho de uma professora de música e que toca piano desde os 4 anos de idade.

    Uma ‘festa selvagem’

    Produzido na estrada, em meio à extensa turnê do tal doloroso disco de estreia, “Voicenotes” concorre ao Grammy de melhor engenharia de gravação. O disco reflete a forma como Puth lidou com a fama meteórica (“nunca vou amar ser famoso, mas amo tocar para os meus fãs. Faz parte do jogo”) através de baladas de piano, r&bs sombrios remetendo ao fim da década de 1980, de Babyface e Terry Lewis, e canções pop radiofônicas.

    15045865_SC Rio de Janeiro-RJ 15-09-2013 Rock In Rio 2013 Shows no palco Mundo Show Jessie J Segundo.jpgO disco recebeu críticas mistas, mas melhores do que “Nine track mind” exatamente por trazer um artista de essência ainda pop, que dialoga com diferentes tipos de público, mas que soube apresentar composições maduras, como o hit “Attention”, que também caminha para o seu primeiro bilhão no YouTube.

    A mudança de postura é refletida até nos convidados do disco: enquanto o primeiro traz nomes ligados ao público teen, como Selena Gomez e Meghan Trainor, “Voicenotes” conta com os veteranos James Taylor e Boyz II Men, além do vozeirão da cantora Kehlani.

    — Eu mixei todo o álbum sozinho, no banco de trás do meu ônibus de turnê. Ele só faz sentido por ter sido assim. É um disco que reflete os altos e baixos da estrada. Tem momentos de dor e desespero, mas também tem espirais de felicidade — conta o músico.

    Empolgado por fazer sua estreia no Brasil, Puth promete aos fãs que tanto o convidaram nas redes sociais uma “festa selvagem”. E adianta que poderemos ouvir novidades por aqui:

    — Acho que até outubro eu terei algumas canções prontas.

    Charlie Puth fecha o Palco Sunset no dia 5 de outubro, o mesmo que já tem P!nk, Black Eyed Peas e Paralamas do Sucesso confirmados no Palco Mundo. Jessie J é a primeira artista confirmada para o dia 29 de setembro.


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  • 12/21/18--09:00: Entre telas
  • Sei que pra muitos já é normal, mas não consigo me acostumar com gente mexendo no celular durante uma sessão de cinema. A pessoa está ali do seu lado, compartilhando as imagens que formam aquela história, quando de repente mete a mão no bolso, pega o celular, coloca a senha, arrasta com os dedos os aplicativos na tela, curte uma foto, um post, o que seja, desce o feed, trava novamente o aparelho, guarda no bolso e então finalmente volta — e te permite voltar — pro filme. Nessas horas sinto vontade de acender um cigarro só pra ver o que acontece.

    Já não me lembro da última vez em que fui ao cinema e consegui ver o filme inteiro sem alguém por perto cair na tentação de dar uma olhada das notificações. O pior é que são pessoas adultas, algumas já até em idade avançada, quer dizer, gente que viveu a maior parte da vida sem fazer uso de celulares e agora não consegue mais se segurar por uma hora e meia de projeção. Às vezes, eu fico pensando, mais do que incomodado com a luz, eu fico assustado com o impacto do aparelho na vida das pessoas.

    Outro dia aconteceu de novo, mas de um jeito diferente. Em vez de contar as vezes em que a pessoa ao meu lado pegava no celular, contava as vezes em que ela largava o aparelho. Os personagens iam sendo apresentados, tiros, transas, mortes, e ela lá, com a cara enfiada no celular. Um verdadeiro mistério. O que faz alguém sair de casa, pagar um ingresso caro — era domingo! — pra ficar mexendo no celular durante o filme? Ficava me perguntando e não encontrava a resposta.

    O cara estava a duas cadeiras de mim, o suficiente pra me incomodar com a luz do aparelho mas não pra revelar o conteúdo observado. Minha curiosidade crescia. Seria algum caso familiar? Profissional? Teria entrado no cinema tentando se distrair e acabou sendo sugado pelos problemas através do celular? Todo tipo de tragédia me ocorreu enquanto buscava a resposta. Me recusava a aceitar que ele poderia estar simplesmente navegando em suas redes, vendo fotos e opiniões enquanto sobe e desce a sua linha do tempo, afinal, por trás do aparelho celular era exibido um filme, resultado do esforço de muita gente, desde o roteirista ao diretor, atores, técnicos, produtores, distribuidores, funcionários dos cinemas, além do esforço do público, de ir até o cinema, comprar o ingresso, tentar se conectar com a história do filme, eu precisava, realmente, acreditar que existia um motivo.

    Mas não havia. Pouco tempo depois, ele e a mulher ao lado começaram a conversar sobre as fotos exibidas pela tela do aparelho. E assim passaram o resto do filme. Eu ficava indo e voltando pra história, não conseguia deixar de pensar no que se passava ao lado.

    O pior de tudo é que em meio a tantas idas e vindas do pensamento fica a dificuldade de sentir o filme exibido. Se entregar pra ele. E isso acho que reflete muito bem nosso momento, como espécie. Essa dificuldade de fazer uma coisa de cada vez, se dedicar por inteiro, intelectual ou espiritualmente ao que quer que seja.

    Quanto a mim, consegui esperar até o final; só depois da última cena peguei o celular e fui olhar minhas notificações. Havia postado uma foto no Insta e queria ver o que estava acontecendo.


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    RIO - Concursos de beleza são alvos frequentes de discussões. Competição brutal, distúrbios alimentares entre modelos e propagação de padrões estéticos inatingíveis são alguns dos temas amargos por trás de todo o glamour. E são essas questões que aparecem em “Queen America”, nova série do Facebook Watch, a plataforma de streaming da rede social de Mark Zuckerberg. A dramédia, criada por Meaghan Oppenheimer, explora os bastidores da acirrada, às vezes cruel, disputa pelo posto de Miss América. Mas Catherine Zeta-Jones, estrela dos dez episódios de 30 minutos cada, oferece uma perspectiva bem diferente, até positiva.

    — Estamos diante de mulheres lutando por conta própria, defendendo-se sozinhas, tentando melhorar de vida e fazendo escolhas importantes. Se isso não é empoderador, não sei o que é — defende a atriz galesa, por telefone.

    Ela se apressa em dizer que sabe do que está falando. Sua carreira artística começou aos 4 anos, quando a mãe a matriculou numa escola de dança e canto.

    — É meio que a mesma coisa, por ser uma competição pesadíssima. Passei grande parte da minha vida diante do espelho, treinando. Se você faz isso, pode ter certeza que vai achar algo de errado com seu corpo. Não podemos culpar os concursos, que remontam à década de 1920, pela ditadura da beleza atual. Hoje, os corpos idealizados estão por toda a parte, ao passo de um clique. Existem até aplicativos para retocar sua aparência. Tenho uma filha de 15 anos (Carys Zeta, fruto do casamento com o ator Michael Douglas) que vive nessa realidade. E eu, com 49, ainda sou afetada por isso — afirma a vencedora do Oscar de atriz coadjuvante, pelo musical “Chicago” (2002).

    Trailer de 'Queen America'Na atração, Catherine interpreta Vicki Ellis, uma exigente treinadora de aspirantes a Miss América. Com ajuda dos assistentes Mary (Rana Roy) e Nigel (Teagle F. Bougere), Vicki força suas clientes a correr na esteira até quase vomitar, controla a alimentação das moças até elas desmaiarem e as impede de namorar. É uma personagem detestável, a bem da verdade.

    — Isso me preocupou desde o começo — admite Catherine. — Eu também não gosto dela. Mas é por isso que eu quis esse papel: para você odiar amá-la e amar odiá-la. Por fora, ela carrega uma armadura social. No fundo, é uma mulher frágil e com a alma fragmentada. É muito difícil transmitir essa complexidade.

    Vicki tem uma relação problemática com a irmã e a sobrinha, mulheres simples e acima do peso — ou seja, bem distantes do mundo perfeitinho da protagonista. Mas o principal conflito acontece quando a modelo que ela orienta, a dedicada Hayley (Victoria Justice), se envolve num acidente de carro, embriagada, e vira escândalo nacional literalmente um dia após ser escolhida Miss Oklahoma. A moça perde a coroa e Vicki se vê obrigada a tutelar a segunda colocada, Samantha (Belle Shouse), uma comilona sem nenhum talento aparente para se destacar no palco. A interação com essas pessoas abre, aos poucos, seu horizonte.

    A mensagem do roteiro sobre a importância da autoaceitação vai ficando evidente, assim como o lado sombrio dos concursos de beleza, ambiente, segundo a série, repleto de assédio sexual e abuso psicológico.

    — Eu não sabia nada sobre esse mundo. Na minha pesquisa, descobri que um dos maiores treinadores dos Estados Unidos é um homem. Assisti a documentários e vídeos de vários países, incluindo o Brasil, sobre o assunto. Na Índia, o treinamento se assemelha ao do Exército. As candidatas estudam questões sociais e convivem numa casa no estilo “Big Brother”. Existe um comprometimento fascinante. Como venho de Swansea, uma pequena comunidade de Wales, tive que ralar bastante. Então entendo essas moças, sabe?

    Talvez você nunca tenha ouvido falar no Facebook Watch — ou sequer em “Queen America”. Tudo bem. É que o serviço de vídeo sob demanda chegou ao Brasil de repente e sem alarde, em agosto.

    É uma espécie de YouTube dentro do Facebook. Lá, há conteúdo produzido por parceiros e pela própria empresa, como séries originais. Além de “Queen America”, há a elogiada “Sorry for your loss” (já renovada para uma segunda temporada), protagonizada por Elizabeth Olsen, a Feiticeira Escarlate de “Os Vingadores”. Basta digitar o nome da atração no campo de busca e assistir. A parte chata são os comerciais que interrompem os vídeos de hora em hora.

    — Eu não poderia fazer uma personagem como a Vicky no cinema — avalia Catherine Zeta-Jones, que já trabalhou com diretores como Steven Spielberg (“O terminal”, 2004) e Steven Soderbergh (“Traffic”, 2000; “Doze homens e outro segredo”, 2004; e “Terapia de risco”, 2013). — Acho que é por isso que muitos atores estão indo para a televisão ou streaming: para fazer os personagens que querem fazer.


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  • 12/21/18--22:30: A Lisboa dos escritores
  • Lisboa está na moda. Não atrai apenas turistas, mas também novos moradores, alguns dos quais artistas e criadores culturais com amplo reconhecimento internacional. Não, não vou falar da Madonna, que fixou residência no mais literário dos palacetes portugueses, o Ramalhete, d’ “Os Maias”, de Eça de Queirós (o meu livro preferido). Também não vou falar da Mónica Bellucci, de Éric Cantona ou da Scarlett Johansson. São pessoas que, embora vivendo em Lisboa, habitam mundos muito distantes do meu.

    Interessam-me sobretudo os escritores. Um dos que escolheu Lisboa para viver, o espanhol António Muñoz Molina, caminha todos os dias sobre a minha cabeça, ou seja, no apartamento acima do meu. Molina, que em 2013 ganhou o mais prestigiado prémio literário espanhol, o Prémio Príncipe de Astúrias, publicou em 2014 um romance que tem Lisboa como palco: “Como a sombra que passa”, sobre a passagem pela capital portuguesa do assassino de Martin Luther King, logo após ter cometido o crime.

    Outra escritora que se mudou para um apartamento próximo ao meu foi Taiye Selasi. Filha de uma pediatra nigeriana e de um cirurgião ganês, mais conhecido enquanto poeta, Taiye nasceu em Londres, estudou nos EUA e viveu em Roma e em Berlim antes de se mudar para Portugal. Costuma ser apresentada ora como escritora americana, ora como britânica, ora ainda como nigeriana e / ou ganesa. O seu primeiro e até agora único romance, “Ghana must go!”, publicado em 2013, foi rapidamente traduzido para mais de 25 idiomas, recebendo rasgados elogios da generalidade da crítica. Estranhamente, nunca foi publicado no Brasil.

    A nacionalidade de um escritor afirma-se naquilo que ele escreve — não está nas páginas de um passaporte. Sendo assim, parece-me mais justo apresentar Taiye como uma escritora africana, ou afropolitana, para utilizar um termo que ela própria ajudou a definir e divulgar. Um bom termo, aliás, pois junta o conceito de panafricanismo dos anos 1950, com o de cosmopolitismo. Um afropolitano é um africano sem fronteiras, que se sente tão à vontade nos salões literários de Nova Iorque quanto num shebeen (bar informal) sul-africano. Taiye veste bem o conceito — linda, alta, elegantíssima, fala fluentemente meia dúzia de idiomas, enquanto viaja pelo mundo para dar aulas de escrita criativa ou para discursar sobre identidade e localismo, outro conceito que vem desenvolvendo: basicamente, a ideia de que estamos ligados a um arquipélago de lugares dispersos pelo mundo, não a países. Cada vez mais, os cidadãos do século XXI possuem identidades transnacionais.

    Na passada terça-feira fui jantar a casa de Taiye. Os restantes convidados constituíam o espelho perfeito daquilo em que se transformou a cidade: americanos, alemães, portugueses, africanos e pessoas com múltiplas identidades; escritores, músicos, gente ligada ao cinema e às novas tecnologias de informação. “Interessei-me por Lisboa quando percebi que a cidade era uma mistura entre Berlim e Roma.” — Disse-me Taiye. — “Lisboa tem ao mesmo tempo uma forte ligação com o passado, como Roma, mas já está no futuro, como Berlim. E além disso há o sol.”

    E os escritores — acrescento eu. Ajudando a reinventar a cidade.


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    RIO - Com “Elizabeth” (1998) e “Elizabeth — A era de ouro” (2007), Shekhar Kapur resgatou a reputação de Elizabeth I, a “Rainha Virgem”, como a mulher mais poderosa do século XVI. Agora, volta-se para outro símbolo de poder feminino. O premiado diretor, nascido na região hoje conhecida como Paquistão, prepara uma releitura contemporânea, com atores de carne e osso, da lenda de Mulan. A jovem chinesa que se passou por homem para lutar contra os invasores hunos, dois mil anos atrás, é a mesma personagem que inspirou a animação da Disney lançada em 1998.

    A revelação foi feita no Festival de Macau, na semana passada. Embaixador honorário da mostra chinesa, Kapur foi homenageado com a exibição de “Rainha bandida” (1994), a polêmica cinebiografia de Phoolan Devi, venerada por mulheres das castas inferiores da Índia nos anos 1970 e 80.

    Seu “Mulan” começa a tomar forma no momento em que a Disney roda uma versão live action da história, com estreia prevista para 2020.

    — Não tenho ideia de como será o filme da Disney, mas estamos buscando uma interpretação do conto de fadas, mais apropriada aos nossos tempos — diz o cineasta, de 73 anos. — E a história não termina no longa. Vai continuar na forma de uma série de TV, com a possibilidade de chegar, posteriormente, a outros formatos e mídias.

    Uma mulher precisa se vestir de homem para a guerra? Essa é uma das questões que pretendo discutir com o filme.

    Como será essa nova Mulan?

    Queremos oferecer uma visão diferente da personagem, mais assertiva e moderna, mais apropriada ao momento que vivemos hoje, na China e no mundo. Mulan será uma heroína de seu tempo, porém mais próxima do modo de viver e pensar das mulheres de hoje e de como elas se sentem e se veem no mundo. Uma mulher precisa se vestir de homem para a guerra? Essa é uma das questões que pretendo discutir com o filme.

    Então podemos esperar uma Mulan mais feminista?

    Certamente. Ela é uma feminista à frente de seu tempo. Não poderia me interessar por outro tipo de personagem. Meus filmes costumam falar de mulheres que tomam as rédeas de seu destino, independentemente da época em que vivem. Basta lembrar “Rainha bandida” e “Elizabeth”. Tradicionalmente, as histórias de amor são contadas do ponto de vista dos homens. Eles aparecem para dominar as forças do destino e da natureza, e as mulheres sempre ficam sujeitas ao que eles determinam. Na minha visão, elas é que controlam seu destino.

    Mas há uma subtrama de romance no original da Disney...

    Não espere um conto de fadas. As jovens hoje são diferentes, estão mudando, estão no comando. O casamento, por exemplo, deixou de ser um objetivo de vida. Não conheço nenhuma jovem hoje em dia, indiana ou não, que tenha me dito que quer conhecer um cara legal e casar. Elas são mais ambiciosas, querem saber quem são, buscam uma identidade, e por elas mesmas, não mais por intermédio de um companheiro, namorado ou marido

    Um pêndulo balança nos dois sentidos, se ele for muito longe para um deles, sempre haverá uma reação. As mulheres estão reagindo a séculos de subjugação. Os tempos estão mudando.

    O senhor tem exemplos próximos disso?

    Tenho uma filha de 18 anos e que já descobriu o que quer ser na vida. Aos 11, ela começou a escrever músicas e me disse: é o que quero fazer, escrever e cantar música.

    Muitos homens veem o feminismo como ameaça...

    Um pêndulo balança nos dois sentidos, se ele for muito longe para um deles, sempre haverá uma reação. As mulheres estão reagindo a séculos de subjugação. Os tempos estão mudando. As mulheres representam metade da população do mundo mas, na Índia, por exemplo, são 70% da mão de obra da agricultura. Trabalham nas fazendas o dia inteiro, voltam para cuidar de filhos, casa, marido. Às vezes, levam os bebês para o campo, nas costas. Se tirarem as mulheres da agricultura, será um colapso. Elas são importantes para a economia, mas continuamos vivendo em negação, no mundo inteiro. A diferença é que agora percebemos isso. E nem todos os homens são maus. A ordem está mudando. Essa mudança não pode ser negada. No fim, para seguirmos em frente, é melhor que as aceitemos como parceiras com direitos iguais.

    Como vê a situação da Índia, com seus altos índices de violência contra a mulher?

    A Índia é um país estranho. Ironicamente, uma de nossas divindades mais populares é a guerreira Durga, uma figura feminina. Shakti, outra deusa da cultura hindu, quer dizer força, poder, mas também significa “mulher”. Há toda uma mitologia em torno de Shiva que sugere que, se não houver união entre o feminino e o masculino, o universo morre. Num passado recente, tivemos uma grande primeira-ministra, que foi Indira Gandhi. Temos assistido a outras mulheres assumirem postos de destaque . A violência persiste, mas parte, em sua maioria, dos homens jovens. Eles não sabem lidar com as mulheres, respondem de maneira violenta. “Rainha diaba” é sobre isso, a cultura da violência contra a mulher, o estupro como ato de afirmação sexual do homem.

    O que tem contribuído para mudar isso?

    A internet. Movimentos como o #MeToo não teriam acontecido sem as mídias sociais, elas deram base, força e velocidade à luta contra o assédio. Isso teria sido impossível dez anos atrás. O problema é que a internet dá voz às pessoas erradas também. Mas, sabe de uma coisa? Isso pode ter acontecido também quando o jornal impresso nasceu. Todas as mídias novas inspiram preocupação.


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    Os três filmes mais interessantes atualmente em cartaz não estão num cinema perto de você. Eles estão na palma da mão. “Roma”, de Alfonso Cuarón, “A balada de Buster Scruggs”, dos Irmãos Coen, e “O outro lado do vento”, de Orson Welles, uma trinca de produções que faria a festa de qualquer circuito de salas de arte, só podem ser vistos na Netflix.

    Ainda há alguma resistência a se considerar cinema o que não é visto numa sala escura, em tela grande, numa experiência compartilhada. À frente desta resistência, está o tradicional Festival de Cannes que, este ano, negou-se a aceitar a inscrição de filmes da Netflix. Mas a resistência foi vencida por um festival mais tradicional ainda, o de Veneza, que não só exibiu os três filmes em questão, como deu seu prêmio principal a “Roma”, que agora é favorito para ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro, como ainda é incluído em todos os prognósticos de produções que concorrerão na categoria de melhor filme.

    “Roma” é mesmo o filme do momento. É um legítimo exemplo do que foi chamado nos anos 50 do século passado de cinema de autor. A fotografia, do próprio Cuarón, é deslumbrante. O roteiro, do próprio Cuarón, talvez seja seu ponto fraco. O argumento se aproxima de duas produções brasileiras recentes, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, e “Casa grande”, de Fellipe Barbosa. Em outras palavras, retrata a relação entre patrões e empregados domésticos numa família de classe média. Só que, agora, a ambientação é mexicana. Os roteiristas brasileiros, porém, foram mais felizes. O filme de Cuarón sempre dá a impressão de que não está acontecendo nada, o que é entediante para uma projeção de duas horas e 15 minutos. Imagino que, num cinema, numa sessão corrida, a experiência seja ainda mais incômoda. No streaming, a gente pode, pelo menos, interromper a ação e continuar vendo mais tarde.

    O que realmente torna “Roma” um filme único são os planos longos que Cuarón realiza em cenas de multidão. Num hospital, o espectador acompanha a trama principal enquanto ações do cotidiano hospitalar, milimetricamente coreografadas, acontecem ao fundo. Uma caminhada por uma calçada movimentada do bairro onde vivem os patrões da protagonista (Roma é o nome do bairro que justifica o título do filme) transforma-se num plano-sequência quase inacreditável com muitos figurantes, carros de época (o filme se passa em 1970), figurinos adequados e a tal coreografia milimétrica. Uma manifestação política nas ruas é outra oportunidade de mostrar maestria na direção. Mas esta qualidade acaba se transformando em defeito. Com a repetição, o filme favorece o formalismo em detrimento da emoção.

    Há muita badalação também em torno da atriz que interpreta o papel principal, o de empregada da família, Yalitza Aparicio. Professora, Yalitza nunca tinha trabalhado como atriz. Talvez seja atriz de um filme só, mas tem um desempenho que fez muitos críticos americanos apostarem que ela ganhará uma indicação para o Oscar. Resumindo: “Roma” expõe um grande diretor e uma atriz surpreendente em torno de um filme difícil de acompanhar e que nunca emociona.


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